Adeus
…este é o post número 900 e o último… estão aqui quase 6 anos de escrita e imagem num blogue que agregou tudo o que publiquei ao longo deste tempo em vários outros blogues… foram 900 com mais de 5.700 comentários… fica a imagem da minha mão numa alusão à leitura das linhas da mesma numa tentativa de adivinhar o futuro… ele a Deus pertence e eu apenas me limito, como sempre fiz, a caminhar, continuar o caminho na procura da Luz, da Paz e da Harmonia… sejam felizes… adeus!…
(ver em http://lobices-4.blogspot.com/ )
Subentendimentos
Ouvindo a noite
“…sentado nesta cadeira de frente para o meu computador, numa mesa de madeira, branca de sua cor, eu teclo nas letras paradas ao redor dos meus dedos…preparo um texto, sem contexto, com uma textura qualquer, talvez de amargura…não me preocupa a forma, nem as palavras que me vão deslizar pelos dedos e destes para o écran que, de vez em quando, olho prevenindo um possível erro de escrita…não me preocupa o tema, mesmo que sem lema não se torna um dilema neste plural sistema de escrever prosa ou poema… trata-se de fazer deslizar apenas o teclado pelos meus dedos e deixar sair as palavras da minha mente numa constante busca da semente do significado para aquilo que estou a fazer neste momento…e que faço eu, nesta hora, aqui, sozinho e agora, batendo lento ou apressado nas teclas do meu teclado…olho em frente e vejo um relógio que marca as horas lentas que passam por mim e que marcam o tempo de viver a sorrir e a amar… tudo e todos, sem olhar a quem…somente por amar… e que espero eu obter desse amargor doce da alma que sofrendo não chora, pelo contrário, vive e implora… e que espero eu senão encontrar o caminho mais leve que me percorra o corpo como quente neve branca como o luar que lá fora, no céu cinzento, teima em espreitar numa noite fria de chuva que se aproxima do meu solitário estar… não percorro os corredores do dia que passou nem choro as lágrimas que retive dos acontecimentos que por mim passaram como uma brisa leve pousando no lugar onde estou e me sinto pairar dentro do meu próprio eu… procuro o sentido da vida que não encontro, numa procura constante de mim mesmo, na luta insana da loucura que afasto de mim nem que seja por um instante… e esse instante está chegando na forma da noite que se aproxima, daquele estado de espírito que me anima, pois a solidão resta a meu lado sem um mudo som ou qualquer grito abafado… e aqui fico, esperando a noite chegar para nela me agachar e aninhar… povoar nela os meus sonhos de aqui me sentir e de aqui gostar de estar, neste lado do meu mundo, sozinho, de dia ou de noite, a mim próprio mentindo… mentindo-me em constante delírio duma busca que ufana luta me provoca na mente que, pensando, não me escuta… e não me oiço a pensar, nem quero sequer isso imaginar… oiço apenas a noite chegar e a sua escuridão me abraçar, sem me possuir nem me ter, apenas me rodeando de um leve prazer por ouvir os seus sons sobre mim verter… e vertem-se esses sons em pancadas surdas de palavras mudas, livres e desnudas de sentido ou de intenção… a noite traz paz ao meu coração… ouvindo-a, fico sossegado e dou a mim próprio a minha própria mão…segurando-me para não a possuir…para ficar aqui e não ir… senti-la apenas num, pequeno que seja, luxuriante som… ouvindo a noite, parto para o êxtase do meu ser, não pretendendo ver, apenas ouvi-la… dentro de mim, a bater…”
Sons
“…foi numa altura em que ainda se conseguia lá ir com o carro… entrei pela porta principal e comecei a subir até ao mais pequenino sítio para se poder estacionar… Saí e o silêncio estava lá à minha espera… Havia um pouco de vento mas não sei de que quadrante… Fiz o restante do percurso a pé, até à zona mais perto do castelo, das muralhas…Olhei em frente e em volta… Fiquei fascinado… Nunca tinha visto as costas aos pássaros voando… Por baixo de mim e à volta das muralhas, os pássaros voavam abaixo do meu nível de visão… Era um enorme prazer o que a minha vista desfrutava… O silêncio estava ali ao meu lado… Inspirei fundo e retive o momento para que ainda hoje me lembre dele como se o estivesse a viver agora… Há imensas rochas por ali… Imensa memória ali cravada na pedra, ali forjada em segredos de distância e de histórias que se conhecem mas também das que se não sabem… memórias de tempos imensos de glória e de luta… Olhei a rocha e coloquei as palmas das minhas mãos na firme solidez fria das pedras… o que senti não foi “daqui” mas também não sei de onde foi… senti algo que me percorreu a alma e a minha memória encheu-se de imagens.Inspirei novamente e de novo guardei o momento para o rever quando o quisesse viver de novo (o que estou a fazer agora)… O silêncio tinha som e imagem e esse som me transportou a tempos remotos para lá de tudo o que eu podia conhecer… as imagens, essas, foram nítidas e aqui estão, impressas para todo o sempre, num recanto de mim… O vento sentia-se sem se ouvir e as minhas mãos começaram a aquecer… um formigueiro enorme me percorreu os braços, o tronco, a bacia e desceu pernas abaixo até que senti meus pés ferverem… estava ali debruçado sobre a rocha ouvindo o passado, sentindo como se ele ali estivesse presente dando-me a conhecer o que não tinha vivido… A sensação tornou-se-me límpida e fresca e um sorriso se me aflorou nos lábios… Retirei as mãos da pedra e comecei a descer para o carro… Acabava de viver algo de inesquecível… Tinha pura e simplesmente viajado no tempo, tinha ido ao passado, tinha recuado uns séculos e o som e a imagem ficaram comigo… Apesar de tudo, senti paz… Fica ali, no Alentejo, mesmo perto da fronteira e chama-se Marvão… Preciso de lá voltar…”
Mundo novo
“…na verdade, a net é um mundo novo, curioso, cativante e diferente… é também doce mas, ao mesmo tempo, perigoso… perigoso porque os sentimentos podem ser “adulterados” na sua essência e serem mal compreendidos… não devemos descurar o mundo “lá de fora”, o mundo real, aquele que vivemos de verdade e na verdade… é certo, que aqui, através do anonimato deixamos que os nossos medos se transformem em coragens e os nossos gritos possam ser gritados bem lá do fundo da nossa Alma… este mundo serve para exorcizar os nossos “demónios”, mas serve também para encontrarmos novos demónios e novos anjos… o problema está sempre em saber o que é um anjo e o que é um demónio (tudo em sentido figurado, claro)… eu escolhi uma forma de estar aqui, a de dizer apenas… a de ouvir apenas… a de tentar ajudar apenas… a de responder apenas… a de querer que todos me leiam e me ouçam apenas… a de desejar tudo de bom para todos apenas… e este “apenas” já é muito neste mundo… deixamos aqui impressa a nossa marca de ser que vive e que ri e que chora… deixamos aqui impressa a nossa marca de ser que é e de ser que não é… deixamos aqui impressa a nossa marca de ser o que sempre desejamos ser e não o que somos afinal… é um pouco uma peça de teatro sem actores visíveis… Às vezes, estes actores encontram-se e criam-se novas vivências… umas vezes é bom, outras não… umas vezes é um doce, outras vezes é um amargo sabor… daí que, eu seja uma “personagem”… uma segunda personalidade de alguém que também anda por estas bandas sob outro nick… talvez o outro lado desse alguém que sabe o que é a vida e o que ela pode dar ou tirar… de alguém que já não pretende nada mais do que tentar compreender exactamente o que está cá a fazer… esse que, no fim, quererá “achar ter entendido”… os problemas de que se fala são problemas perante os quais nada podemos fazer… apenas podemos dar amor e querer amor… o caminho (seja de quem for) é para ser percorrido… seja que caminho for; não o podemos alterar nunca… a meta existe mas nunca sabemos qual é… o caminho é muito diverso mas tem de ser palmilhado… deixemos que todos palmilhem a rota que escolherem… não tentemos que a vida seja perfeita… aceitemos a vida tal como ela é… não se consegue alterar o que quer que seja… ela está já “escrita”, não um destino escrito mas o caminho para lá está… as “coisas” não são nunca “obtidas”… as “coisas” são-nos “entregues”… saibamos viver o que a vida nos dá, da forma que ela nos dá, da forma como ela se nos entrega de braços abertos… mergulhemos de alma e coração na caminhada que temos pela frente e esperemos que a “perfeição” esteja no caminhar e não no caminho que se percorre ou na meta que se alcança…”
A inteligência do meu Black
“…tal como já vos havia contado, no dia 20 de Setembro de 2004, o meu amigo Black foi atropelado por um outro animal que nem sequer parou apesar de ter dado pelo evento… na altura, e como existia aqui ao lado uma Clínica Veterinária, o Black foi lá internado e bem tratado… aos poucos lá foi recuperando e passado um mesito voltou ele novamente à “brincadeira” preferida que é andar a ladrar aos carros que passam… é um cão conhecido de toda a gente e todos gostam dele porque ele gosta de todos…
Noites
“…dou por mim, às vezes, a lamentar a minha situação numa espécie de resignada forma de aceitar o que tenho de enfrentar; outras vezes, quase entro em desespero por me sentir incapaz de resolver o problema; ainda noutras ocasiões, sorrio e enfrento… existem lágrimas por vezes porque apenas o amor me traz o sorriso… então, há sempre alguém que me segreda que há sempre outrém que está em piores circunstâncias… eu sei que isso não me alegra mas faz diminuir a tensão… então, recordo aqueles anos em que andei a acompanhar aqueles grupos de assistência aos sem-abrigo… recordo e sinto o frio que eles sentiam… recordo e vejo o sorriso deles ao receber a sopa quente, o pão, o leite, o cobertor e tantas e tantas outras coisas que lhes dávamos entre a meia noite e as 3 das madrugada aos fins de semana… recordo e vejo-os deitados nos vãos de escada, debaixo das arcadas, embrulhados em caixas de cartão, com a cara tapada para que o bafo da respiração os ajudasse a aquecer… recordo e vejo-os sós, de olhos brilhando nos meus olhos, e eu apenas estendia a mão para entregar o que podia entregar… a raiva instalava-se dentro de mim por não poder gritar ao mundo aquele sofrimento… a dor deles passava para mim por eu não poder fazer mais nada… ali ou aqui bem perto no meu Porto, nas ruas, nas praças, nos recantos, nos jardins… na verdade, o meu problema actual não é nada se comparado com aquele sofrimento… dei um pouco de mim naqueles tempos, naquelas noites em que descobri o meu Porto que desconhecia… amei a dor tentando minimizar a dor deles… naquelas noites aprendi que também era possível amar, sofrendo… naquelas noites aprendi o que não sabia ser possível aprender… hoje, lembrei-me deles e aprendi que afinal o meu problema é de somenos importância…”
Hoje, lembrei-me dele
…Tinha eu treze anos quando ele acamou com uma dessas doenças que não perdoam, mas que ele aceitou, consciente da sua pequenez neste mundo, consciente que aquela era a vontade de alguém mais forte que toda a força desta vida, para aquém e para além desta que temos. Durante dois anos houve momentos de dor e houve momentos de paz; nesses momentos mais felizes de paz, lá ia eu de mão dada com ele passear um pouco para aliviar a carga psicológica que ele sabia carregar e aguentar firme como uma rocha; pequeno de estatura, e magro para além da magreza da própria doença, ele dava aqueles passos com a firmeza de um homem que nada tinha a temer e tudo tinha a enfrentar; ele dava aqueles passos com a firmeza de um homem que não tem medo de nada, nem daquilo que ele já sabia ter de enfrentar um dia.
Conceito
Adágio
Oh lógica da beleza…
Oh verdade infinita
Criança cristalina
Soluçando nos meus ouvidos
Como soluços doces e divinos….
Oh bela e pura melodia
Que por entre a fragrância do ritmo
Te revejo no infinito
Do meu ser interior
De sonhos perdidos
Em sonhos de amor…
Oh lógica bendita
De som belo e de cor azul…
Tão bonita!…
SILÊNCIO
“…Há um silêncio absoluto aqui até mesmo dentro de mim… Estou só, acompanhado apenas da minha solidão; por isso, não estou sozinho; estou acompanhado, logo não estou só… Estranho…
O silêncio penetra dentro de mim sem pedir licença; também não sou capaz de lhe impedir a entrada; ele é tão livre quanto eu e eu, possuidor dessa liberdade, deixo-o entrar e sinto que a excitação que ele me provoca é sinal de prazer… Um prazer proveniente da paz que ele, o silêncio, alberga… Com ele, vem apenas o som da deslocação do ar quando ele chega sem avisar… É que, de repente, só (estando só) o sinto quando ouço o silêncio da sua chegada… Senta-se aqui ao meu lado e vejo perfeitamente que ele me olha de soslaio; mas não lhe ligo importância; quem se julga ele? Alguém de muito especial? Devo-lhe alguma deferência?… Não… Não lhe franqueio sempre a entrada? Então, que mais ele quer? Que lhe dirija a palavra? Não! Mil vezes não! Se o deixo penetrar-me é porque assim o desejo e o quero, em silêncio, em paz, ouvindo-o sem o ouvir; sabendo apenas que ele está aqui… A solidão, por seu lado, essa não se importa muito pela presença dele; já está habituada… Olha-o com desdém como se ele, o calado silêncio, fosse ninguém… Sabe muito bem que ele não me faz mossa; sabe perfeitamente que ela, a solidão, é que é a minha amante preferida, hoje cinzenta (pode ser) mas amanhã, quem sabe, se colorida… É apenas a paz que me traz sereno e me faz sentir o seu frio ameno; é que o silêncio tem temperatura, ora é doce e quente, ora azedo e frio; mas já reparei imensas vezes que quando é azedo se sente um frio ameno; não enregela nem me estremece o corpo; amorna-me a alma e deixo-me ficar na mordomia da sua presença… É tudo apenas um estado de solidão a sós com o silêncio que me faz companhia… Por isso, não esfria… Deixa-me estar como quero… E ele se queda também e fica… Não incomoda… Sabe que a qualquer momento que eu queira, o mando embora; sabe que um grito forte pode, num ápice, cortar o ar que ele deslocou ao chegar… Ele sabe isso e por isso não se preocupa comigo… Mantém apenas um vago olhar… Como quem não sabe se parta ou se deve ficar… Depende apenas e só do meu grito; se este, o grito, do meu peito sair com força, com ânimo, com desejo de ser quem sou e não quem quero parecer ser… O problema com que me debato é saber o que sou ou mesmo até quem sou… Serei eu próprio o silêncio?…”
Parir
Metade
Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço. Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei…
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é a platéia e a outra metade, a canção.
E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade…
também.
de Oswaldo Montenegro
Garra
“…às vezes, em muitos momentos da vida, as pessoas vêem-se perdidas, sem razões para estarem onde estão ou por estarem como estão… às vezes, em muitos momentos da vida, o ser humano questiona o porquê do seu sofrimento, a razão pela qual merece ou não merece a desdita que enfrenta… às vezes, muitas vezes, o ser humano duvida do porquê dos muitos porquês que assolam as suas dúvidas… às vezes duvidamos apenas porque não olhamos para o lado e não vemos que outros têm mais razões para duvidarem do que nós…e, sem razão, colocamos o nosso problema como o mais grave de todos quando outros nem sabem que têm um problema porque ele é a sua razão única de ser… às vezes, precisamos apenas de ter “garra”, de nos agarrarmos a qualquer coisa, a algo que saibamos ser a solução para o nosso problema… às vezes, bastaria um sorriso e, principalmente, saber amar… saibamos agarrar o Amor como único suporte para a dor que julgamos estar a passar… agarrem o Amor enquanto é tempo… depois, depois pode ser tarde demais… amem… agarrem o Amor… sejam felizes apesar de tudo…”
Espelho
“…torno-me espelho de mim mesmo e a luz que em mim me toca, se reflecte no exterior do meu ser… espalho o que sou no espaço em meu redor… vejo-me diverso e dividido em milhares de partículas de luz, facto que tanto me seduz… porém, receio quebrar-me em mil pedaços e perder a magia destes meus ténues passos pelo mundo da fantasia… elejo-me mentor de mim mesmo e, sereno, torno-me pleno daquilo que sou: uma partícula apenas no meio do nada que me rodeia… mas a minha imagem, por todos os lados dividida, semeia no espaço em que me insiro tudo o que tenho por pouco que seja e eu sinto que a verdade deste louco imaginar, mais não é do que o desejo de o ser, de em mil imagens me tornar e… me dar…”
Ensaio sobre a solidão
“…depressa me canso de mim… olho à minha volta e só vejo recordações… uma terna claridade invade o meu quarto e me rodeia de mansinho… já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio!… nunca soube o porquê de tal evento… é uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio… algo que nada traz a não ser paz… mas trazê-la já é bom… e é nesses momentos que me sinto só… e sabem porquê?… porque não tenho com quem partilhar esse momento!… algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão… dizer a alguém: “…Vês?… Estás a ouvir?… A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo… Entendes?…”… mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado… engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio… já somos três… estendo-me então no leito dessa luz e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade… nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente… nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só… estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros… passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito… sinto o seu respirar lento e compassado… é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração… e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado… no entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado… é um abraço puro mas forte… ingénuo mas apaixonado… é apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer… porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolvem, o silêncio se aperta contra mim e me possui… penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante… o que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe… penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta… o bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim… o tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade… é um estar sem vida, sem morte e sem idade… apenas habita em mim numa eterna cumplicidade… respiro o espaço que me rodeia… e a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia… já tenho mais uma companhia… o doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho… adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade…”
Saudades
“…tenho saudades tuas… Queria ter-te aqui comigo, a meu lado, de mãos dadas ou de olhos nos olhos… Cingir-te a cintura e apertar-te contra mim e sentir teu corpo… Desejar o teu desejo… Ouvir teu coração bater com a minha face sobre o teu peito… Beijar-te a boca e saber-me dentro de ti… Sentir-me mais uma vez como as muitas que senti…Tenho saudades tuas… Chamar pelo teu nome… Ouvir a minha voz pronunciar esse som e saber-me respondido com o teu sorrir… Estar onde estás e saber-me contigo, aberto de mim para te receber em plenitude… Entrar no teu ser e saber-me lá residente, não ontem nem hoje mas, sempre… Perder-me no teu labirinto e jamais encontrar a saída… viver os caminhos e as esquinas que se cruzassem à nossa frente e deixar de conhecer o tempo que nos cerca… olvidar a dor da ausência do teu doce amar… tenho saudades tuas…”
Amem
…amem com dorso, com costados, com palmas, com gelo ou com fogo…
…amem com garra, com pena, com ternura ou com censura…
…amem um minuto, uma hora, um dia, uma vida, um momento ou uma eternidade…
…amem no ventre ou já com idade, com siso ou indeciso, com chuva, com vento, com água, com sal…
…amem por um momento que seja para que esse momento perdure na vida ainda que essa vida não perdure nesse momento!…”
Ausências
Adormecendo
Hiato
O sorriso
“…que o sorriso renasça das cinzas frias da vossa tristeza… que o sorriso vos aqueça… que o sorriso vos amacie… que o sorriso não feneça… que o sorriso na vossa face vos propicie a leveza da alegria de se ser e estar tal como somos… que o sorriso receba as lágrimas que vossos olhos brotam… que o sorriso se alargue a novos horizontes da vossa memória… que o sorriso seja límpido, cristalino, suave, doce… que o sorriso vos limpe a mágoa… que o sorriso sirva para vos sentirdes vivos… que o sorriso, por fim, faça outro alguém sorrir também…”
Indeterminado
Desejo
Decidir
“…Há sempre algo que nos impede de fazermos o que achamos que não devemos fazer; como que, dentro de nós, houvesse uma espécie de censura que velasse pelas nossas acções. O que podemos e o que não podemos fazer é algo que, primeiro, vai à loja da censura e só depois segue para fabrico. A forma final do produto é que poderá ser diversa daquela que foi projectada. Onde nos leva tal atitude? Que castração nos provoca semelhante sujeição? Porque não fazemos apenas o que nos apetece fazer? O que é isso de consciência? Uma espécie de balança com uma série de pratos onde são pesados todos os prós e os contras daquela acção planeada. Porém, porque razão agimos de imediato, sem pensar, em momentos de crise duma forma a que chamamos de instinto? Ou será que mesmo antes de agir instintivamente, a loja da censura funciona mesmo sem darmos por isso? Será que há, na mesma, um pesar na balança? Saltamos de imediato para o lado para evitarmos ser atropelados por uma carro mesmo sem vermos que podemos cair na valeta cheia de água suja da sarjeta; fugimos rápidos, em caso de incêndio por exemplo, da varanda para a rua sem olharmos à altura que nos separa dela e sem pensarmos que podemos partir uma perna. Porém, no dia a dia das nossas acções habituais de vida em que o instinto não é preciso, as nossas atitudes são “pesadas” antes de as tomarmos, como se de uma poção mágica se tratasse e fosse preciso tomar a medida exacta. Então, hesitamos antes de agir e somente depois actuamos. As nossas escolhas devidamente pensadas tanto podem dar para o certo como para o torto; não há maneira de sabermos se aquela decisão, ainda que devidamente gerida e equacionada, vai resultar em pleno. Mais tarde é que saberemos o resultado. Na verdade e a experiência mostra-nos isso, quando usamos o instinto, verificamos o resultado da acção então utilizada, de imediato, quer seja bom ou mau; também, de imediato, ficamos felizes ou infelizes com a opção tomada. Já quando apenas a tomamos depois de devidamente ponderada a questão, somente muito depois veremos o resultado; e até podemos viver angustiados aguardando o desfecho; será que fiz bem, será que fiz mal? E agora? Bem, só tenho que aguardar e esta espera, esta expectativa provoca angústia, provoca danos, provoca dor. Que faço? Escrevo um texto sobre que tema? Bem, vamos lá ver. Penso, repenso e nunca mais me surge a inspiração para desenhar algumas letras sobre um tema que nunca mais se faz luz em mim. Então, de imediato, começo a teclar instintivamente; saiu o que acabaram de ler; ao mesmo tempo que escrevia ia vendo o resultado de imediato daquilo que surgia no monitor. Não houve angústia; não houve dor. Utilizem o instinto o mais que puderem. Vão ver que, geralmente, dá certo. Também o pior que poderá acontecer é terem de perder tempo a ponderar a questão. Mas será que ponderar é assim tão mau? Não sei, a decisão é sempre individual. Façam o que vos aprouver; façam o que vos der na real gana. Sejam felizes nem que para isso seja preciso chorar um pouco. É que, às vezes, umas lágrimas clarificam a situação e o panorama, após o choro, é um pouco mais claro!…”
Agir
“…quantas e quantas vezes, ou talvez não, pedimos um milagre… algo que nos mude a vida para melhor, algo que nos faça deixar de sofrer, algo que nos tire a lágrima que teima em correr, algo que nos permita sorrir para sempre e não mais ser dor… quantas e quantas vezes, ou talvez não, pedimos um milagre… algo que nos modifique a forma de ser, de podermos ser melhores ou até mesmo de podermos ajudar os outros… algo que tire o sofrimento no mundo, algo que permita a paz entre as pessoas… quantas e quantas vezes, ou talvez não, pedimos um milagre… um milagre para nós!… Estamos sempre a pedir um milagre na nossa vida; estamos sempre a pedir um milagre que nos tire a dúvida, a dor, a fome, o desânimo, a doença e tantas outras coisas que nos atormentam… tantas e tantas vezes e o milagre não vem e amaldiçoamos a prece por ela não ser ouvida… talvez fosse melhor não pedir um milagre… talvez fosse melhor sermos nós próprios o próprio milagre: mudarmos a nossa maneira de sentir o que somos e passar a sentirmos o que queremos ser; talvez nos baste sentir o que queremos e alegrarmo-nos com o que temos, com o que nos é dado usufruir… talvez nos baste sentir o que queremos ser e sermos o próprio milagre… quantas e quantas vezes, ou talvez não, pedimos um milagre e esquecemo-nos de o “fazer”, de o “elaborar”, de o “conquistar”… de sermos nós a agir…”
Caminho
“…caminho por espaços vazios… sem ventos nem ondas de mar ou de areias… caminho por loucas miragens de sonhos que anseias… caminho por calçadas de granito frio… duro, mas dentro dele, como ouro puro, a força da sua própria grandeza… caminho com leveza, por vielas escuras, nuas, de ténue luz duma varanda… caminho por onde não se anda… caminho por rios de água rasa, onde o sol brilha no coração que abrasa… caminho na direcção do nada, onde tudo se apaga num instante de beleza como uma estrela quando morre na sua própria incerteza… caminho sem saber por onde e por mais que procure, não diviso luz… caminho somente porque amo, sem saber porquê, sem saber o porquê, sem saber que a loucura me sufoca e que por detrás desta insana caminhada, estarás sempre tu, Mulher amiga, meu amor e minha amada!…”
Evoluir
Tu no meu ventre
“…no meu ventre não escondo nada
…nem a noite nem a madrugada
…no meu ventre guardo a mágoa
…deste meu peito raso de água
…no meu ventre explode o amor
…que solto ao vento se esvai
…e em pélagos de sangue
…no teu rosto ele cai
…no meu ventre explode o amor
…sentido, dorido, sofrido
…amor passado, presente e futuro
…no meu ventre escondo tudo
…com o meu ventre expludo
…em míriades de estrelas
…que vagueando pelos céus
…enchem os lindos olhos teus
…no meu ventre escondo as palavras
…do meu ventre dou à luz as palavras
…do meu ventre
…de bem dentro de mim
…me entrego a ti completo…”
Primeiro
Estatuto
Busca
Eu
“…amo desde o momento que quero amar até ao momento em que decido não amar… para amar é preciso querer amar como quem tem frio e quer calor ou como quem está cansado e quer descansar… tão simples quanto isso: é apenas um acto de exercício de um querer… não amamos por amar ou porque fomos aprender a amar como quem vai aprender uma nova disciplina; só se aprende uma nova ciência desde que se queira aprender; é preciso querer aprender; ninguém é obrigado a amar como ninguém é obrigado a não amar ou até mesmo a odiar… para amarmos é preciso que se queira amar: dizer mesmo – eu quero – e sentirmos que esse é um querer simples e sem artifícios… amar é uma entrega absoluta sem qualquer barreira, mesmo que magoe, que fira, que não seja o que pensávamos que seria… amar é uma dádiva e não um receber o que quer que seja, dando-nos para além de nós próprios mesmo que isso signifique perder alguma coisa… amar pode ser a perda de nós mesmos em prol de alguém que precise mais de mim do que eu próprio preciso e pode significar, portanto, dor, lágrima, choro, tristeza, amargura, infelicidade, desespero, quiçá até mesmo desamor… amar não é sorrir e dizer: Que bom, amo!… amar é dizer eu estou aí em ti e não em mim… amar é olhar para mim e sentir que só faço falta a ti e que me sobro a mim próprio… amar é tão simplesmente isso: querer estar naquele que precisa de mim mesmo que isso queira dizer que me perca, que deixo de ser o que sou ou o que gostaria de ser, mesmo que signifique a dor e a perda que tanto abomino e não desejo… para amar basta apenas querer amar…”
Escrita
Viagem sem retorno
“…Eram extremamente apelativos… estavam ali à minha disposição… em cima da mesinha de cabeceira… Era uma caixinha escura que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir… Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem, uma sem retorno… Nunca houvera pensado nisso, excepto naquela noite… uma noite em que ela não estava ali deitada comigo (nunca mais estaria)… uma noite em que acabara de chegar de mais um bar e depois de ter ingerido um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia… Também, para que queria eu uma alma?… Que é que ela me dá ou me faz?… A caixinha preta continuava ali… Quantos comprimidos teria ela deixado desde a última vez que a encheu depois de os tirar da embalagem de marca do medicamento?… A minha mão direita estendeu-se para aquela caixinha preta tão apelativa como tão consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar… Não custaria nada e dormiria para sempre… tão bom… Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de gin?… Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão… debaixo da cama, talvez também deitada no chão por cima do tapete… teria ainda algum líquido?… O suficiente para engolir os comprimidos?… Já não tinha forças para me levantar e ir buscar outra garrafa…. A caixinha preta continuava ali e a minha mão já estava em cima dela… Senti aquela textura (penso que era marfim) sob os meus trémulos dedos mas senti-a fria e um arrepio percorreu-me a coluna… ou teria sido outro tipo de arrepio?… Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão… Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão… Não sei quanto tempo a olhei com um turvo olhar… Não sei porque razão não a segurei… Dei por mim a olhar para ela sem saber para que é que ela servia e naquele momento apenas me apeteceu dormir… tão perto do derradeiro sono… tão desejado… ali tão à mão… Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha preta que continha o passaporte para a derradeira viagem… tantas vezes assim estivemos… tantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar… tantas vezes assim ficamos depois de fazermos amor… E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem… Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas… não consegui segurar a caixinha preta… Não consegui partir… Restou-me a certeza que no dia seguinte teria mais uma noite de frio…”
Tenho frio
Tenho frio, tenho muito frio…”
Carta ao meu filho
…um beijo grande
Não te sei responder, meu filho… Mas que pagaste… e bem… lá isso pagaste… E esse preço faz parte da minha dívida para contigo… dívida que jamais poderei pagar, pois por mais que te ame, jamais te pagarei o sofrimento que te provoquei…E esse preço faz parte da minha angústia para o resto da minha vida, pois por mais que te ame, jamais aliviarei a dor que sinto no meu peito… E esse preço faz parte integrante do meu dia a dia, pois por mais que te ame, jamais sairá do meu peito a dor da dor que te dei… Não te peço perdão pois não sou digno dele… não te peço que me releves todas as minhas faltas… não te peço que me compreendas… não te peço sequer que entendas… Peço-te apenas que acredites na dor que vive comigo…”
Teu pai.
Singelo
“… não, não te movas… deixa-te estar tal como estás… aí, serena, em paz… deixa-me olhar-te mais uma vez para além das muitas vezes que te olho, que te toco ou que te sinto… deixa-me ver a tua face, os teus olhos, o teu brilho ou até mesmo a tua alma… deixa-te estar assim, serena, calma… deixa-me olhar-te sempre, tal como te olhei ontem, deixa que te olhe hoje e amanhã… quero tudo já, mesmo que demore a eternidade nada me faz mais feliz do que esta tão suave felicidade… o prazer de te ver, de te ouvir, de te sentir, de te saborear… o prazer de te amar… o prazer de te saber aí ou aqui mas dentro de mim, sempre, perene, nunca ausente… é um estádio puro de loucura sã a que vivi ontem a que vivo hoje a que viverei amanhã… é um saber com sabor num saborear a mar… o mar do verbo amar num deixar fluir o teu ser e o meu estar… e o beijo flutua no ar e pousa de mansinho no teu regaço, singelo gesto do mais desejado abraço…”
A serenidade me visitou
“… a calma tinha-se aproximado de mim como não me conhecesse… eu já a conhecia há muito pese embora os grandes momentos em que não a via ou não me encontrava com ela… porém, naquela vez, ela fez de conta que não sabia quem eu era… aproximou-se mansamente e como quem não quer a coisa, saudou-me ao de leve com um leve acenar pela passagem, pelo encontro… não lhe liguei demasiada importãncia mas educadamente correspondi ao seu aceno e sorri-lhe… foi nesse momento que ela olhou para mim e, de chofre, me perguntou: – Porque sorris?… Naquele instante não encontrei resposta mas uns segundos após, saiu-me uma frase lenta e suave: – Porque não haveria de sorrir?… Acho estranho, disse ela: Estás sempre preocupado, cheio de problemas, a tua cabeça é um vulcão, a tua alma desespera, o teu coração bate e os teus olhos não choram… Pois, respondi eu, eu sei mas por vezes caio em mim e entendo que de nada me vale o lamento; por certo que estou errado quando desfaleço e sentado ou deitado me concentro nas agruras da vida; depois penso que a vida é apenas aquilo que dela fazemos, aquilo que dela queremos, aquilo que dela podemos tirar… a vida nada nos dá excepto ela mesma, ou seja, ela se nos entrega numa única vez e após instalada em nós, somos nós mesmos que a gerimos… temos esse poder, o poder de moldar os dias, as horas, os minutos e até mesmo os segundos dos nossos momentos aqui e agora, ontem e, quem sabe senão ela, também amanhã… somos nós que decidimos enfrentar ou não o momento que se nos depara, seja ele bom ou mau… é apenas uma questão de escolha… mas tu não eras asssim, disse-me ela, a calma… sim, eu sei… na verdade, a vida foi tão diversa e tão cheia de coisas e coisas que houve vezes em que não te consegui enfrentar ou mesmo aceitar e desesperei… porém, houve também momentos em que soube que me podias ajudar… por isso te sorri agora… sei que me podes inundar e tornar-me pleno de mim mesmo e conceder-me ainda mais a capacidade de me dar ainda mais do que já tentei… sei que me ajudarás… porque me trazes a sabedoria, a sensatez, a alegria, a ternura de me saber feliz ao sentir que amo, que o caminho que percorro é o único que me pode serenar, o único que me pode pacificar, a caminhada plena para amar… e, com amor, se ama e com amor se perpectua a nossa vida, mesmo para além da morte… por isso, hoje, te sorrio por saber o quanto amo quem amo, quem me dá a plenitude da serenidade, num amar terno e seguro, forte e puro, real que de tão real, a ti o juro…”
Graal
“… avanço na direcção certa ainda que não saiba o caminho, mas avanço… não me deixo ficar a olhar para a vereda que já percorri… avanço em frente, passo a passo, com cuidado mas com força e determinação… não são os meus pés que caminham mas a minha alma, o meu sabor de caminhar e o meu saber de que o estou a fazer… avanço porque quero… porque espero… porque sei que vou encontrar… o que quer que seja ou qualquer que seja o meu destino, a minha meta, a minha linha de chegada (a linha de partida já se esvaíu da minha memória), eu sei que a recompensa está lá… seja ela minúscula ou enorme… mas não é o seu tamanho que me move… mas sim o ter de ser… o querer, o amor, o desejo de amar… o caminho mais nobre, mais salutar do ser humano: amar!… vou sem olhar para trás… afasto os escombros dos prédios destruídos da guerra que se travou dentro e fora de mim ao longo dos anos e que foram ficando ali à minha frente porque nada pode ficar para trás… não devemos olhar para trás, não, mas tudo o que passou vai connosco na nossa caminhada… é preciso, pois, afastar o entulho, o pó, as pedras aguçadas que nos cortam o ser e continuar a correr… a percorrer… a olhar em frente, erectos, de cabeça erguida, de olhar brilhante e não turvado por uma ou outra lágrima que teime em cair… apenas tenho de ir… e vou… avanço sem medos, sem receio do que vou encontrar… o que lá estiver será o que calhar, o que tiver de ser… o que lá estiver, no final da caminhada será apenas o meu tudo ou o meu nada… mas o que quer que seja, seja tudo ou seja o nada, o que quer que seja, será meu… meu para abraçar, para abarcar, para enlaçar, para gritar ao mundo que por mais desconhecido que seja o fim do caminho, devemos avançar, com ternura, com amor, com garra, com dor se preciso for, com todo o afinco, com todas as nossas forças na procura do nosso “graal”, na busca do sentido da nossa vida, para que no acto final, qualquer que ele seja, eu saiba que fiz tudo o que me foi possível para saber que valeu a pena, que nada perdi, que fui quem fui, que sou quem sou, que serei quem tiver de ser, no aceitar único de que o percurso certo e correcto é apenas saber e querer amar…”
Elegia
“…ele olhou-a nos olhos e viu uma tristeza profunda na alma ou lá onde é que a tristeza ou a alegria se instalam às vezes em nós… ele olhou-a nos olhos e viu o que ainda não tinha visto: a mágoa de não ser o que queria ser, a dor de não poder, o sofrimento do desejo insatisfeito ou ainda do satisfeito não desejado… olhou-a bem nos olhos e viu-a chorar por dentro sem que uma lágrima bailasse nas pálpebras tão serenamente abertas… olhou-a uma vez mais, sem pressas (ou altivez como quem percebe o que está a fazer, ou a sentir ou ainda a ver), com vagar, com doçura, com precisão… sentiu-lhe a pulsação acelerada quando lhe pegou na mão… tinha-a fria, quase gelada e aquele olhar tão triste ainda mais fria tornava aquela mão… pegou nela e levou-a até ao seu peito… espalmou-a bem de encontro à sua pele em peito nu e com a outra mão cobriu as costas dela forçando-a a ficar ali para que o calor a invadisse… não, nada lhe disse… ficou assim, olhando bem fundo dentro dela… aproximou a sua boca da boca dela, muito lentamente, e muito ao de leve pousou lá um beijo… nesse momento, sentiu nos seus lábios o sabor salgado de uma lágrima… saboreou o gosto e pousou-lhe a cabeça pendida no ombro… apertou-a contra ele e deixou-se ficar assim, juntos… um momento eterno para lembrar se tivesse sido filmado naquele momento… seria uma pose a lembrar para o resto da eternidade… sentiu a mão dela a aquecer e a sua face enrubescer num lento esgar de um sorriso… viu então o seu olhar, até ali perdido, encontrar-se em algum lugar… talvez dentro de si mesma, talvez dentro dele, talvez na fusão dos dois, não interessava, mas ele, o sorriso, ali se encontrava, um sorriso que brotava do calor dos corpos ou do bater de dois corações que se amam e tudo entendem… ele sorriu também, os corpos se moveram e se convulsionaram num espasmo de espanto e de sabor a tudo e a tanto… o doce sabor do perdão… o doce sabor da gratidão… o doce paladar do encontro, do confronto, do calor do ombro deixado de ser almofada para se tornar parte do abraço… e o riso se instalou num suave embalar dos dois ao mesmo tempo que aquela lágrima ficara lá, em lugar distante, perdida, a secar…”
Espelho
“…torno-me espelho de mim mesmo e a luz que em mim me toca, se reflecte no exterior do meu ser… espalho o que sou no espaço em meu redor… vejo-me diverso e dividido em milhares de partículas de luz, facto que tanto me seduz… porém, receio quebrar-me em mil pedaços e perder a magia destes meus ténues passos pelo mundo da fantasia… elejo-me mentor de mim próprio e, sereno, torno-me pleno daquilo que sou: uma partícula apenas no meio do nada que me rodeia… mas a minha imagem, por todos os lados dividida, semeia no espaço em que me insiro tudo o que tenho por pouco que seja e eu sinto que a verdade deste louco imaginar, mais não é do que o desejo de o ser, de em mil imagens me tornar e… me dar…”
Matinal
“…olhou-se ao espelho naquela manhã de vento norte que forte soprava na sua janela… os seus olhos marcados por largas olheiras de uma noite mal dormida não lhe permitiram uma razoável visão… colocou os óculos… mirou-se melhor… a boca estava seca e os lábios pareciam cortados… o cabelo despenteado ainda que curto cortado… o nariz comprido deu-lhe a noção de grandiosidade que não tinha (nem queria, ou será que sim?)… retirou os óculos e pousou-os perto… abriu a água fria e meteu a cabeça debaixo do jacto… estremeceu e abanou a cabeça como cachorro molhado há pouco… olhou-se de novo… pela cara escorriam as gotas da água com que se fizera acordar daquele sono pesado… olhou profundamente nos seus próprios olhos mas teve de colocar novamente os óculos para se ver melhor… a imagem que mirava era interessante apenas porque nova… quem via era alguém que já não via há muito tempo… estava ali, à sua frente, alguém que tinha dormido um sono bastante longo… estava ali, à sua frente, alguém que acordara de novo… foi preciso uma espécie de baptismo… foi preciso nascer de novo, como que surgir do ventre materno e sentir a placenta feita água gelada escorrer-lhe pela face… sorriu… sentiu-se novo, bonito, airoso, sorridente… piscou um olho a ele mesmo… sorriu novamente e pegou na espuma de barbear…”
Materna
Imagens
“… encosto a cabeça no vidro semiaberto e fecho os olhos por segundos… pela frincha sai o fumo do cigarro ao mesmo tempo que as gotas da chuva varrida pelo vento tenta entrar com força… não há lágrimas que se comparem às que batem no tejadilho do carro… o vento sopra forte de sul e as ondas alterosas mostram-me um mar agitado porque de si próprio aquelas lágrimas haviam saído uns dias antes… percorro a visão até ao horizonte cinzento-escuro e vejo um relâmpago descer sobre as águas… imagem bela e soberba… o céu zangado como me ensinaram em criança… o interessante era terem mais medo do trovão do que do relâmpago… havia uma cantilena que rezavam fechadas no quarto… algo que no meio das palavras semi comidas pela reza eu percebia algo como santa bárbara… mais tarde vim a saber que Santa Bárbara tem a ver com as trovoadas, dizem… imagens da infância que recordo com saudade… um corpo deitado no chão da sala, uma chupeta e um açucareiro ao lado… e lá ia eu molhando a chupeta no açúcar e chupando… ainda hoje gosto de comer açúcar… um corpo escondido no meio do centeio que não se dobrava pelo vento… um corte num pé provocado por um vidro escondido… umas mãos pequenas pegando nas pombas que existiam no pombal do pai… uma gaveta com postais antigos do Brasil que meu avô trouxera… um retrato enorme dele e de minha avó no dia em que casaram, pintado a carvão… era imponente… um fogão de lenha crepitando… o cheiro a sopa… o avental da avó sempre à cintura… a roda grande da bomba de tirar a água do poço… a relva do coradouro onde o cheiro da roupa lavada com sabão azul, perfumava o ar da manhã… as couves galegas mais altas que eu… imagens a passarem em catadupa… e a chuva que entrava pelo vidro começou a molhar-me a face e a cabeça e o cigarro já me estava a saber mal… liguei o motor, fiz marcha-atrás e arranquei dali para fora… para lá do mar ficava o sonho, o sonho que sempre tive de o enfrentar, o sonho que sempre tive de me meter dentro dele e o amansar… nunca conseguido… um dia quase me havia engulido… os faróis foram ligados porque a penumbra já era demasiadamente escura para ser dia… a noite que se aproximava iria brindar-me com mais recordações… é isso que faço para adormecer todas as noites… relembro imagens distantes e tento reconstruir a vida que já não existirá nunca mais… puzzles de imagens, de sons e de choros e de risos, de quedas, de corridas, de corpos cheios de calor abraçando-nos… porque nos faz tanta falta esses abraços de outrora?… a estrada à minha frente ainda era longa e a noite me esperava…”
Há milhares de anos
“…que eu tinha qualquer coisa para dizer, algo que já anda no meu pensamento há milhares de anos e nunca tive essa oportunidade… há dias, quando surgiste na minha vida, um pouco espantada por ela mesmo, um pouco alheada do próprio mundo, quando ali surgiste espelhada na minha alma, eu estive quase quase para dizer… …penso que me faltou a coragem e a voz se me embargou… calei dentro de mim o que deveria ter gritado… talvez tenha esquecido a forma de gritar, talvez só saiba calar… não sei… já não sei… …mas eu tinha qualquer coisa para dizer, algo que me possui e me rasga a mente, num acto demente do meu próprio ser de aqui estar sem saber falar, sem saber o que te dizer, sem saber gritar o que tanto tenho calado… milhares de anos de silêncio dentro de mim… milhares de anos de solidão da minha própria voz… milhares de anos de espera que surjas ali à esquina, em qualquer lugar, e num momento de paz eu possa gritar todo o meu amor… …áhh dor que dói e me corrói a alma de tanto calar esta tão louca forma de amar… dor de aqui estar e não saber o que dizer, de não saber traduzir esta minha forma de tão somente sorrir… …e sorrio a todo o instante, aqui, ali, em qualquer lugar ainda que distante… não me preocupa se me ouves, se escondes as palavras que tão docemente me são devolvidas porque não enviadas… doces palavras de paz, ternura, carinho, amor… em doses de candura mas eivadas de toda a minha dor… estão aqui mas sei que tinha qualquer coisa para dizer… como posso gritar se a voz se me tolda em silêncios ocos e sem eco ou se com eco ecoam apenas dentro do meu vazio, um vazio que não preencho ou se preencho apenas o preencho com a minha própria alma já de si tão gasta por durante todos estes milhares anos não me teres dito: Grita!
Não?
“…Procurei todas as razões possíveis e imaginárias para que, pelo menos uma, justificasse o que aconteceu… Não encontrei… Desesperadamente à procura de uma razão até que cheguei à conclusão de que não é preciso razão… As coisas acontecem pelo simples facto de que têm de acontecer… Busca-se uma vida inteira pela razão que justifique determinado acto e ficámos indeterminadamente apáticos quando não a vemos… Mas será que é preciso uma razão?… Mas então, se não houver razão para que algo determine um acontecimento, por que se verifica esse facto?… Vivemos no caos?… O caos não precede ou procede com uma ordem ainda que sem ordem mas com uma necessidade de motivar novo facto?… Tenho lutado este tempo todo comigo mesmo no sentido de tentar perceber… Não consigo… E isso me destrói… Me destrói o facto de não ser capaz, o facto de não conseguir, o facto de assumir a nulidade de tudo o que aconteceu… Não encontrando razão para o motivo dum fim, que razão determinou um princípio?… E, por que razão durou um certo espaço-tempo?… Ou não há razão para nada?… Será que somos apenas marionetes?… Será que nem nos afectos somos os gestores dos mesmos?… Será que não há razão para amar?…”
Dia do Pai
“…já faz mais de 22 anos que partiste… Estás noutro local, um local para onde foste, um local de sossego, de paz, não é ?… Tenho saudades tuas, pai !… Lembras-te do dia em que nos disseste até breve ?… Lembras-te dos dias em que sempre estiveste a nosso lado, lembras-te de tudo de bom que se passou antes de ires, lembras-te de tudo de mau que se passou antes de ires ?… Recordas o dia em que eu nasci, recordas o dia em que passaste ao estatuto de pai ?… Sei perfeitamente que te recordas e que só por isso te valeu a pena viver; sei que viveste em função dos teus, daqueles que faziam parte da tua própria vida, daqueles que eram a razão da tua existência!… Sei muito bem o quanto sofreste por mim e por todos os teus; sei perfeitamente o quanto lutaste para que nada me faltasse, para que tudo estivesse sempre bem… Lembras-te do dia em que te faltou algo para que eu não sentisse essa falta ?… Lembras-te do dia em que não comeste para que eu tivesse comida ?… Lembras-te do dia em que poupaste nos cigarritos para que eu tivesse dinheiro para o meu tabaco ?… Lembras-te do dia em que tiveste de pedir a um amigo para teres dinheiro para mim ?… Lembras-te do dia, de todos os dias da tua vida em que passaste mal para que em todos os dias da minha vida eu passasse bem ?… Lembras-te ?… Sei que te lembras e sei que sabes que tenho saudades tuas… um beijo para ti, pai!…”
Dentro de mim
“… trago-te dentro do meu peito escudada por ternos laços de afeição, de carinho e de paixão… trago-te no meu peito acolhida por todos os laços de serenidade e amor, num cabaz de tudo o que a paz nos pode tornar em seres felizes sem dor… trago-te no meu coração guardada em pétalas de azul celeste de douradas cores que ao longo dos tempos me deste… trago-te em ternuras embrulhada de coloridas sensações de tudo o que a tua presença me dá… trago-te dentro de mim ao sabor do que sinto que vive em ti e que pressinto saber-te dona do meu ser num estado de prazer, de tudo o que me é permito ter… trago-te dentro do meu coração, numa prece, ou oração, num saber que amar é o que te dou e o que recebo em troca numa deliciosa flor, seja ela qual for, mas que representa sempre e para sempre o presente de tudo o que me dás… tenho-te dentro de mim com serenidade e tudo o que representa amor em paz…”
Queria apenas ser o teu sonho
“…em frente ao espelho da cómoda do teu quarto, sentada num banquinho forrado a tecido de cortinado vermelho, penteavas os teus cabelos, num ritual que funciona mesmo sem dares por isso… a escova passava ora uma, ora duas vezes, de cima para baixo e alisava os teus cabelos sedosos, cor de mel e de marfim… brilhavam no espelho e te revias momento a momento numa expectativa de mudança, o que não acontecia pois não podias ficar mais bela do que aquilo que já eras… a beleza em ti não residia nem morava… era!… a tua camisa de noite, acetinada bege, de rendas sobre o peito alvo de seios firmes e redondos, deixava transparecer a cor da tua pele suave e doce ao olhar sem ser preciso tocar… a tua cama de lençóis de prata, aguardava o teu corpo numa ânsia lasciva de quem à noite, só, te espera num desespero de intocabilidade… e tu, demoravas… da cómoda tiraste um frasquinho de perfume e te ungiste com ele o que provocou um agradável respirar a todos os móveis que te rodeavam… e a tua cama, ansiava pela tua presença… e o teu corpo demorava a conceder-lhe esse desejo… levantaste-te de frente do espelho e te miraste novamente de corpo inteiro e gostaste da tua imagem alva e bela naquele quarto iluminado pela tua presença… olhaste de soslaio e sorriste… sentaste-te na beira da cama e esta suspirou docemente perante a antevisão de que breve te possuiria… tiraste os teus pezinhos leves de dentro dos chinelos de cetim vermelho, levantaste um pouco o lençol e te entregaste total e lentamente ao prazer de estender do teu corpo e da entrega final ao teu leito… a tua cama nem sequer se moveu… aquietou-se para não te perturbar, para que não te arrependesses daquilo que acabaras de fazer, com medo que te levantasses e ela te voltasse a perder… a tua cama inspirou baixinho a fragrância do cheiro da tua pele e deixou-se ficar aguardando o teu próximo movimento… deitada de bruços te deixaste finalmente ficar e tua cabeça leve pousada de mansinho na almofada, arfava lentamente o teu respirar de prazer por mais uma noite de descanso e de sonhos… teus olhos semicerrados viram a lâmpada acesa e teu braço se estendeu ao interruptor da mesinha de cabeceira para a desligar… os teus movimentos eram propositadamente lentos para que o tempo demorasse ainda mais do que aquele que já existia… e a tua cama sentia… na obscuridade do teu quarto, teus olhos semicerrados olharam o tecto e se fixaram na sua alva cor que permitia uma réstia de luz no meio da escuridão… olhaste a janela e pelas frinchas da persiana, divisaste a luz cinzenta duma lua crescente… avizinhava-se uma noite de lua cheia e teu corpo descansou por um momento… a tua cama então suspirou e te abraçou fortemente… em suas mãos te acabavas de entregar… e o sono chegou…. adormeceste… não sei mais o que se passou… a noite decorreu, teu corpo diversas vezes se moveu… a tua cama não se movia, com receio de te acordar… abraçava-te sempre para não te deixar fugir… sentia-te sua e possuía-te num sonho imenso de impossibilidade, de impotência, de raiva, por não te conseguir ter tendo-te ali… tua mente adormecida, movia-se e sabia-se que sonhavas… a tua cama te tinha ali, indefesa, sozinha… sonhavas e eu aqui, nada mais te pedia… nada mais desejava… queria apenas ser o teu sonho…”
Tela
“…gosto de desenhar no meu corpo a pura entrega de quem ama… gosto de desenhar na minha alma a luz dessa verdade… escrever com os meus olhos a leitura da saudade… garatujar nos sons as palavras sussurradas… saborear na boca, nos lábios a doçura do mel do teu beijo desenhado desejo de quem procura o abraço esperado… gosto de desenhar nos teus ouvidos as letras que formam os sentidos… desenhar, por fim, já por sobre o esboço da obra final de quem no auge do encontro sente-se sonho sabendo ser real… pairar na tela do teu corpo e desenhar as cores do amor que num todo se move completo no ser que temos por modelo… e sendo-o, tê-lo, possuí-lo e transformar a obra num plano final que dá ao desenho o toque especial como que uma assinatura sobre a obra acabada… depois, ficar a mirar tudo o que havia sido feito para ter ali, na minha frente, a concretização do sonho e saber que todas as palavras ditas ou as desenhadas ou as escritas houveram sido assimiladas, saboreadas e entendidas como brotadas de dentro do meu ser… gosto de desenhar sim, no teu corpo, o meu eu e no fim ao olhar a tela preenchida em ti soubesse ali ter tudo o que havias querido da presença do meu amor…”
Porque te amo?
“…amo-te porque te amo… porque me sinto bem quanto te olho… quanto te toco… quando te beijo… quando sinto a tua pele perfumada junto da minha… quando te vejo sorrir para mim… quando ouço a tua voz… quando te ris… quando me tocas, me acaricias e me fazes sentir homem… amo-te quando me dizes que também me amas, quando me dizes gostar de mim, quando me olhas e vejo no teu olhar a tua alma e o reflexo da minha… quando sabemos que nada mais no mundo nos importa… quando sentimos que tudo o que gira à nossa volta está parado e somos o centro de tudo… amo-te quando te digo que te amo, quando te sussurro palavras ternas, quando ouço as que me dizes… amo-te quando me dás um mimo, um sabor, o roçar ao de leve ou mesmo forte… amo-te porque te amo… porque te sinto bem quando me olhas… quando me tocas… quando me beijas… quando sinto que sentes a minha pele… quando te sorrio… quando ouves a minha voz… quando me rio… quando te toco, quando te acaricio e te faço sentir voar… amo-te quando estou aqui ou aí… amo-te mesmo quando não estamos ou não somos… amo-te porque sei que te amo, porque sinto que te amo, porque vivo esse amor duma forma terna, doce, suave e pura mesmo quando os corpos se entrelaçam e vibram em loucura… amo-te assim, tão simples…tão tudo em ti e em mim…”
Nudez
“… porque te sentas de pernas cruzadas sobre a nudez do teu silêncio?… para te ouvires desejando não ouvir o que não és capaz de pensar?… porque te sentas de costas voltadas à treva se da treva vem a luz que te cega?… para não olhares, para não veres o que sempre desejaste ver?… porque me dizes que sim quando do teu peito sai um gritante não?… para não teres de balbuciar um talvez?…porque pensas que pensas o que não pensas?… para pensares no que eu penso que tu pensas?… não, o melhor é mesmo não pensares… porque sentes que a vida te foge por entre os dedos se as tuas mãos estão presas e cheias de dúvidas?… porque desejas libertação se o que intimamente queres é estar quieta na bonomia do turbilhão?… porque calas o teu grito se do fundo da tua mansarda revelas a negrura da alma que te compõe o sentir?… porque não mentes se é tão doce mentir?… porque não calcas a doçura do mel?… porque não espezinhas a palavra calada?… porque não escreves o nada que tens para dizer?… que te disse eu que tu já não soubesses?… aprendeste algo mais para além daquilo que já não sabias?… que sabes tu da ignorância que te cerca se a certeza de saber é apenas uma incógnita que nos abala a consciência de nada sabermos, ou apenas de sabermos que nada sabemos?… porque te manténs sentada de pernas cruzadas sobre a nudez do teu silêncio?…”
O último movimento
“… terminaram as palavras… as letras deixaram de existir… as frases já não podem ser formuladas e a comunicação escrita ou falada findou… o Homem deixou de poder dizer um simples vocábulo e nem um só ditongo se consegue escrever ou articular… mas a sua necessidade de gritar leva-o a inventar novas formas de comunicar… passa a usar o seu corpo para insinuar as sílabas e começar a juntar os elementos que formam a ideia, a imagem ou apenas o sentido… o seu corpo passa a ser a caneta ou a corda vocal… e as mãos tocam ali, acolá ou aqui… movem-se no espaço e sentem que do outro lado existem outras mãos que fazem o mesmo… e todos começam a gesticular… e do gesto, passam ao encontro, ao toque mútuo, ao abraço, ao enlace, à carícia, ao beijo, à ternura, a todo o género de acto que defina um desejo de comunicar, de dizer: estou aqui, estás aí, podemos falar?… então trocam-se os toques e todos se movem no mesmo sentido… no Mundo existe o silêncio mas passou a existir o abraço… algo que o Homem já havia esquecido há muito… e apesar de o riso não ser articulado, existe o sorriso… e apesar do grito se ter silenciado a lágrima pode escorrer pela face e dessa forma se diz o que se passa, o que se sente, o que se deseja, o que se vê e o que se quer que seja entendido… o Homem calou a voz mas não consegue deixar de comunicar… e o seu corpo passa a ser o elemento base dessa acção… e, dessa forma, mesmo não podendo dizer que se ama, pode-se dizer o mesmo num sorriso, num beijo, num toque, num abraço, num desejo… e o Amor, por mais que o Homem possa perder as suas faculdades, jamais morrerá… e Amar, continuará a ser o único caminho!…”
Desenho
“…desenhei meu corpo nas águas profundas do rio que em mim corre e nele me percorri em tons de azul, cor do céu que nunca morre… desenhei minha alma nas ondas do poderoso mar que fora de mim se move e nele a desenhei em tons de branco nobre, leves, mas sóbrios… desenhei meu corpo na minha alma e a mistura se fundiu em tons vermelhos de sangue puro… e minha alma, pária de si própria, desenhou no meu corpo a felicidade de se saber comigo e não mais solitária… desenhei, por fim, no mais profundo de mim, um campo de flores, pleno de todas as cores, exalando todos os perfumes, completamente preenchidas com todas as vossas dores…”
Informação
…este “novo” blog inclui, atrvés do Sistema de Exportação e Importação de Blogs, todos os posts que existiam no meu outro blogue “lobices-3″…
…assim, este passou a ser o único dedicado à minha continuidade de “Bloguista” desde 19-11-2003 com o “lobices”, depois com o “lobices-2″ e agora com o “lobices – 3 – Fotografia”…
O uivo
Levantou-se com um sobressalto, que a fez erguer a coluna num impulso sôfrego, um nó de desespero atado na garganta. Segurou-a com uma das mãos, como se contivesse a respiração ainda ofegante. A escuridão estava toda emersa numa tonalidade azul, criando uma atmosfera quase irreal no interior do quarto. Uma estranha luminosidade vinha do exterior, e penetrava no quarto pelo espaço entre as velhas cortinas desbotadas. Dirigiu-se à janela como se algo a chamasse. Espreitou por trás do veludo envelhecido do reposteiro e viu um vidro quebrado, estilhaçado no canto inferior esquerdo. Formava um desenho perfeito de uma teia. Tocou-lhe e automaticamente levou o dedo à boca, sugando o sangue do corte que acabara de sofrer. Soltou um breve gemido de dor, frustrado de fúria. Lá fora, a lua erguia-se gigantesca, majestosa, rodeada de uma aura azul intensa, que cobria todas as coisas de improváveis reflexos. Sentiu um incómodo arrepio, como uma fria corrente enferrujada a mover-se no interior da espinha. O espaço à sua volta, de súbito, ganhava novos contornos. Estremeceu perante um breve desacerto do mundo. Julgou ouvir ruídos, um estalar de madeira, ecos de passos atrás de si, o som das sombras a mover-se pelas paredes do quarto. Voltou-se e tremeu. Deu dois passos incertos, esquecida do próprio corpo. O chão estava alagado; os pés descalços enregelados. Ouvia uma torneira aberta, que pingava lentamente. O som adensava-se segundo a segundo, ecoava pela casa toda, cada vez mais próximo, cada vez mais grave, cada vez mais alto, com requintes de tortura. Segurou a cabeça entre as mãos, crispando os dedos entre os cabelos, tapando os ouvidos quase até ao limiar da dor. Enlouquecia. Abriu as portadas e saiu. Correu para a floresta que se estendia, negra e silenciosa, a sul da casa. Não se vestiu. A camisa branca de algodão finíssimo esvoaçava enquanto corria. Um som distante, longínquo, como um uivo, envolvia agora todo o espaço entre as árvores. Tudo à sua volta permanecia assombrosamente azul. Olhava para o céu e os seus olhos cintilavam, fazendo perguntas às estrelas ausentes. Correu a um ritmo alucinante, rasgando a noite escura com a sua deslumbrante figura pálida. Se pudéssemos congelar o momento, encontrar-se-ia a mais bela fotografia do mundo. Era atrás do lobo que corria. Um lobo que conhecia sem nunca ter visto, que a chamava sem nunca ter tocado um fio dos seus cabelos. Sonhara com ele durante seis noites seguidas, um segundo mais cada noite, até que o sonho a puxou para dentro e ela foi ao seu encontro. Correu atrás dele, movida pelo sonho, dominada pela loucura. Corria como se perseguisse a própria vida, e gritava. Gritava o nome do seu amor, como se lhe respondesse. Correu até ficar sem forças, lentamente vergou os joelhos e deixou-se cair no chão húmido. Tinha chovido nas horas anteriores, muito certamente. Cravou as mãos na terra até que esta lhe doesse, negra e perfumada, entre as unhas. Sentiu um frio muito fino percorrer-lhe a parte de trás do pescoço, desde a nuca, descendo até à cintura. Depois um calor imenso a escorrer-lhe pelos braços. Tinha o lobo junto do seu corpo, o seu olhar ferido de medo. Aproximou-se do seu rosto, conseguia sentir-lhe a respiração na face gelada. Mergulhou os dedos finos no pêlo em redor do pescoço, num gesto ambíguo. Como se segurasse, como se repudiasse. Sentia-o roubar-lhe o sopro de vida, ao mesmo tempo que a alimentava de uma inexcedível sensação de eternidade. A escuridão era tão intensa que a noite parecia estender-se sobre todas as coisas, sem limites, insondáveis as suas profundezas. Reinava uma calma inquietante. O seu coração pulsava acelerado dentro do peito, o olhar num fervilhar insustentável de paixão. Olhou à volta, demorando um segundo a reconhecer o espaço do quarto. Um segundo depois, o outro lado do pesadelo: Está um homem ao seu lado. Está frio. O branco dos lençóis tingido de vermelho. Do corpo imóvel e pálido escapa-se um fio rubro e espesso. O olhar preso no infinito. Um último gesto de angústia suspenso na mão. A boca entreaberta, fixo nos lábios um suspiro, com o nome do seu amor.
(prefácio do meu livro “Lobices”)
Deuses
“…deuses fecundos e deuses infecundos… que de amor se preenchem e que de amor se entregam… estados puros que nos abraçam em momentos de paz onde o líbido não reconhece o corpo e a alma nele se desfaz… nesse puro amor de ávidos sentidos onde não existe a dor senão apenas a do despojar de tudo, onde o nada surge no seu esplendor como uma flor, abrindo-se e fechando-se ao mesmo tempo… nem só de viriatos vive a mulher… a loucura é preciso, a insanidade está no siso e no riso… apuram-se as palavras para designarem amar… amar não se designa, amar não se resigna, amar não se digna, amar nem sequer é uma insignia, amar é um estado de alma onde, na verdade, se fundem os viriatos que nem são homens nem mulher… são apenas o desejo de o ser…”
Teimosamente
“…teimosamente, os representantes de Cristo na Terra, mesmo com 2000 anos já passados, como que ainda estando escondidos nas catacumbas de Roma, dizia eu que, teimosamente esses representantes continuam a esconder Cristo dos Homens, através de atitudes que a Igreja Mãe, Católica Apostólica Romana, continua a ter ao não permitir que Cristo seja visto por todos os Homens, como Alguém que está sempre ao nosso lado, sempre presente em todos os actos da nossa vida, dando-nos a Sua mão, dando-nos o Seu amor de paz, dando-se Ele próprio como numa catarse de unidade e amor global… os representantes de Cristo na Terra continuam a fazer separações no seu rebanho, por vezes não procurando recuperar as tresmalhadas, por vezes não procurando amar as que verdadeiramente precisam de amor, por vezes dando atenção às hipocrisias no templo e ficando desatentos aos que, temerosos, não sentem a coragem de pedir ajuda… teimosamente, continuam a não deixar ir a Ele as “criancinhas” cabendo nesta classificação todos aqueles que ainda são “novos” nos caminhos para Deus… teimosamente, continuam a tapar Cristo dentro dum Sacrário, dum Cofre, para que Ele não saia por aí dando o Seu amor a toda a gente… teimosamente, continuam a abrir o Sacrário apenas àqueles que muitas vezes brancos por fora se encontram escuros por dentro… teimosamente, continuam a abrir o Sacrário apenas quando entendem que o devem abrir e não quando lhes pedem para que o abram: “Eu sei, meu Deus, que não sou digno que entreis na minha morada, mas também sei que uma só palavra Tua e a minha Alma será salva!”… teimosamente, continuam a não dar ouvidos àqueles que ávidos de Amor Divino, lhes pedem tão-somente uma palavra de conforto, um ouvir duma lamentação, uma confissão para que o coração se purifique, um pouco do Corpo de Cristo para que as suas Almas sejam salvas… teimosamente…continuam a esconder Cristo ao Homem…”
Hoje
…e porque hoje gotas de chuva também me lavaram a alma
…e porque hoje despi meu corpo e me olhei inteiro
…e porque hoje senti a sombra da minha ausência
…e porque hoje sorri à solidão e não fechei a janela
…e porque hoje abri a porta e entrei dentro de mim
…e porque hoje berrei o silêncio e o grito calei
…aqui me quedei sorrindo do choro que ainda não chorei…
…FIM… 5 anos de bloguices…
“… a 19 de Novembro de 2003, no Sapo, nascia timidamente o blogue «lobices»… cresceu, foi caminhando através de palavras e imagens até que um dia passou para o Blogger… um dia cansou, ao fazer 3 anos e quase morreu não fosse o ter nascido logo a seguir o «lobices-2» (este que aqui está)… hoje, 19 de Novembro de 2008, cinco anos passados entre vós, eis que chega o momento de parar para descansar um pouco… talvez um tempo de gestação para um «lobices-3» quem sabe… mas, por agora termina aqui a missão do «lobices» que se apresta a agradecer a vossa presença ao longo destes 5 anos e a dizer-vos bem haja por tudo o que ele significou para mim… um até breve… e o meu obrigado do fundo do coração…”
agarrar o tempo
“…e os dias escorrem por entre os meus dedos e não os consigo agarrar… e as horas se esvaem em momentos de saudade e de desejos de presença… e os minutos contam quando se pensa no que queremos que seja e sentimos não poder ser… até que surge o momento em que o encontro se apraz nele mesmo e nos delicia com todos os segundos que o toque nos propicia… e os dias que escorrem pelos dedos deixam de existir e a paz volta a fazer-nos sorrir… e o ciclo continua numa luta de vontades e de saudades… as idas e as vindas e o abraço da chegada e o abraço da partida… ambos transmitem o mesmo mas com sentido diferente… ambos são enlaces mas um traz o sorriso e o outro leva a lágrima… até que nova vinda que nos anima surja após os dias que escorrem pelos meus dedos… e, nessa altura, desaparecem todos os medos e fica apenas a troca dos segredos que guardados foram nos momentos que escorreram pelos dedos… e esses breves dias que tão rápidos passam por nós, trazem-nos os sorrisos, os beijos, os abraços e sabemos que não estamos sós… temo-nos um ao outro, por tempo que sabemos ser pouco mas que vale pela ânsia daqueles que nos escorrem pelos dedos… e o beijo sela a doçura do tempo em que a dor perdura na esperança que depressa passe a amargura dos dias que nos escorrem pelos dedos e não os conseguimos segurar… sabemos apenas que, pelo menos, amar a cada segundo que passa é uma bênção que fica cá dentro e não foge como o tempo que gostaríamos de prender… mas a dor da ausência ajuda-nos a vencer…”
ventre
“…no meu ventre não escondo nada
…nem a noite nem a madrugada
…no meu ventre guardo a mágoa
…deste meu peito raso de água
…no meu ventre explode o amor
…que solto ao vento se esvai
…e em pélagos de sangue
…no teu rosto ele cai
…no meu ventre explode o amor
…sentido, dorido, sofrido
…amor passado, presente e futuro
…no meu ventre escondo tudo
…com o meu ventre expludo
…em míriades de estrelas
…que vagueando pelos céus
…enchem os lindos olhos teus
…no meu ventre escondo as palavras
…do meu ventre dou à luz as palavras
…do meu ventre
…de bem dentro de mim
…me entrego a ti completo…”
tela
“…gosto de desenhar no meu corpo a pura entrega de quem ama… gosto de desenhar na minha alma a luz dessa verdade… escrever com os meus olhos a leitura da saudade… garatujar nos sons as palavras sussurradas… saborear na boca, nos lábios a doçura do mel do teu beijo desenhado desejo de quem procura o abraço esperado… gosto de desenhar nos teus ouvidos as letras que formam os sentidos… desenhar, por fim, já por sobre o esboço da obra final de quem no auge do encontro sente-se sonho sabendo ser real… pairar na tela do teu corpo e desenhar as cores do amor que num todo se move completo no ser que temos por modelo… e sendo-o, tê-lo, possuí-lo e transformar a obra num plano final que dá ao desenho o toque especial como que uma assinatura sobre a obra acabada… depois, ficar a mirar tudo o que havia sido feito para ter ali, na minha frente, a concretização do sonho e saber que todas as palavras ditas ou as desenhadas ou as escritas houveram sido assimiladas, saboreadas e entendidas como brotadas de dentro do meu ser… gosto de desenhar sim, no teu corpo, o meu eu e no fim ao olhar a tela preenchida em ti soubesse ali ter tudo o que havias querido da presença do meu amor…”
um fim anunciado
“… tudo nasce… tudo morre… eterno ciclo da vida do que quer que seja… até as estrelas morrem e dão lugar a super novas e talvez a novas galáxias… tudo parte dum princípio e tudo termina num fim… é assim a vida e tudo o mais que nos rodeia… acredito que o meu amor pelas palavras terminará apenas quando eu também terminar o meu percurso nesta vida… uma vida rica em tudo o que de mau vivi e em tudo o que de bom me foi proporcionado… levarei, um dia, um gosto amargo por findar mas levarei também um sorriso porque o meu caminho percorrido foi sempre o de amar… mas espero que esse momento natural para cada ser humano ainda venha longe e que a vida ainda me dê muita coisa para experimentar, vivenciar, saborear, e ficar a saber um pouco mais para além de tudo o que aprendi até aqui… um dia, a vida findará e levarei comigo tudo o que me deu sorriso e lágrima, tudo o que me deu prazer e dor… levarei certamente o Amor… mas não estou a falar de mim mas sim deste meu blogue… o Lobices nasceu, um dia, no Sapo, mais precisamente no dia 19 de Novembro de 2003… Tímido e titubeante lá foi crescendo e tomando forma… teve filhos e irmãos e manteve um rumo a que lhe dei o lema de que -Amar é o caminho – e assim ele foi vivendo… porém, depois de passar pelo Blogger e de ter atingido uma certa notoriedade, a verdade é que entendo, como seu criador e mentor, que o Lobices chegou ao fim do seu percurso como tal, como blogue… no próximo dia 19 de Novembro ele fará a bonita idade de 5 anos, cinco anos de paixão pela palavra, pela imagem, por tudo o que me deu prazer em vos transmitir e principalmente por todo o amor que lhe dei e nele deixei… as palavras ficarão lá para todo o sempre e ele apenas morrerá fisicamente… a mente, essa, estará sempre viva… o Lobices sou eu e eu ainda não morri nem penso morrer… todavia, vou preparar a vereda para o seu fim… deixarei aqui, como sempre deixei, uma parte de mim… o livro que do blogue nasceu está vivo e guardado no meio de outros livros que o rodeiam… o Lobices cumpriu a sua missão… breve será fechado num adeus presente, nunca ausente, mas vivo e latente no meu coração… espero que ele, o Lobices, vos tenha feito alguma companhia enquanto aqui viveu… em breve vos dirá, Adeus!…”
encontro
“…trazias o perfume de uma flor e o sabor de uma iguaria… trazias tudo o que eu desejava, o que eu queria… trazias contigo a doçura do teu olhar e a leveza do teu toque para o meu corpo amaciar… trazias o sol e o brilho das estrelas… trazias o sorriso estampado na pele e o cheiro da maresia quando se espalha na areia… trazias tudo o que um homem anseia… trazias o amor dentro de ti, o amor que se dá e não se regateia, o amor que sempre perdura mesmo quando partes… trazias a esperança no rosto e os lábios entreabertos prontos para o beijo, para o doce toque em que todos os sabores se transformam em mel… de braços abertos meu ser te aguardava, ansioso… certo da tua vinda, da tua chegada… e o abraço se deu num enlaçar de paz e de ternura… e todo o ser se deu e se recebeu e as mãos se entrelaçaram… e num serpentear de passos arrastados porque leves, os caminhos nos levaram… e o sabor a tudo num leito se aconchegou… e o amor que veio e o amor que esperou, por ali, naqueles instantes infinitos, se quedou e a si mesmos se entregaram na paz que só os que amam sabem sentir…”
movimento
“… terminaram as palavras… as letras deixaram de existir… as frases já não podem ser formuladas e a comunicação escrita ou oral findou… o Homem deixou de poder dizer um simples vocábulo e nem um só ditongo se consegue escrever ou articular… mas a sua necessidade de gritar leva-o a inventar novas formas de comunicar… passa a usar o seu corpo para insinuar as sílabas e começar a juntar os elementos que formam a ideia, a imagem ou apenas o sentido… o seu corpo passa a ser a caneta ou a corda vocal… e as mãos tocam ali, acolá ou aqui… movem-se no espaço e sentem que do outro lado existem outras mãos que fazem o mesmo… e todos começam a gesticular… e do gesto, passam ao encontro, ao toque mútuo, ao abraço, ao enlace, à carícia, ao beijo, à ternura, a todo o género de acto que defina um desejo de comunicar, de dizer: estou aqui, estás aí, podemos falar?… então trocam-se os toques e todos se movem no mesmo sentido… no Mundo existe o silêncio mas passou a existir o abraço… algo que o Homem já havia esquecido há muito… e apesar de o riso não ser articulado, existe o sorriso… e apesar do grito se ter silenciado a lágrima pode escorrer pela face e dessa forma se diz o que se passa, o que se sente, o que se deseja, o que se vê e o que se quer que seja entendido… o Homem calou a voz mas não consegue deixar de comunicar… e o seu corpo passa a ser o elemento base dessa acção… e, dessa forma, mesmo não podendo dizer que se ama, pode-se dizer o mesmo num sorriso, num beijo, num toque, num abraço, num desejo… e o Amor, por mais que o Homem possa perder as suas faculdades, jamais morrerá… e Amar, continuará a ser o único caminho!…”









































































































































































































































