Lobices

…meiguices de lobos e não só…

silêncio

“…Há um silêncio absoluto aqui até mesmo dentro de mim… Estou só, acompanhado apenas da minha solidão; por isso, não estou sozinho; estou acompanhado, logo não estou só… Estranho…
O silêncio penetra dentro de mim sem pedir licença; também não sou capaz de lhe impedir a entrada; ele é tão livre quanto eu e eu, possuidor dessa liberdade, deixo-o entrar e sinto que a excitação que ele me provoca é sinal de prazer… Um prazer proveniente da paz que ele, o silêncio, alberga… Com ele, vem apenas o som da deslocação do ar quando ele chega sem avisar… É que, de repente, só (estando só) o sinto quando ouço o silêncio da sua chegada… Senta-se aqui ao meu lado e vejo perfeitamente que ele me olha de soslaio; mas não lhe ligo importância; quem se julga ele? Alguém de muito especial? Devo-lhe alguma deferência?… Não… Não lhe franqueio sempre a entrada? Então, que mais ele quer? Que lhe dirija a palavra? Não! Mil vezes não! Se o deixo penetrar-me é porque assim o desejo e o quero, em silêncio, em paz, ouvindo-o sem o ouvir; sabendo apenas que ele está aqui… A solidão, por seu lado, essa não se importa muito pela presença dele; já está habituada… Olha-o com desdém como se ele, o calado silêncio, fosse ninguém… Sabe muito bem que ele não me faz mossa; sabe perfeitamente que ela, a solidão, é que é a minha amante preferida, hoje cinzenta (pode ser) mas amanhã, quem sabe, se colorida… É apenas a paz que me traz sereno e me faz sentir o seu frio ameno; é que o silêncio tem temperatura, ora é doce e quente, ora azedo e frio; mas já reparei imensas vezes que quando é azedo se sente um frio ameno; não enregela nem me estremece o corpo; amorna-me a alma e deixo-me ficar na mordomia da sua presença… É tudo apenas um estado de solidão a sós com o silêncio que me faz companhia… Por isso, não esfria… Deixa-me estar como quero… E ele se queda também e fica… Não incomoda… Sabe que a qualquer momento que eu queira, o mando embora; sabe que um grito forte pode, num ápice, cortar o ar que ele deslocou ao chegar… Ele sabe isso e por isso não se preocupa comigo… Mantém apenas um vago olhar… Como quem não sabe se parta ou se deve ficar… Depende apenas e só do meu grito; se este, o grito, do meu peito sair com força, com ânimo, com desejo de ser quem sou e não quem quero parecer ser… O problema com que me debato é saber o que sou ou mesmo até quem sou… Serei eu próprio o silêncio?…”
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06/07/2005 - Posted by | Diversos |

10 comentários »

  1. olá joaquim, finalmente cheguei!
    mais uma vez obrigada pela tua visiita.
    sabes, muitos dos problemas de solidão prendem-se somente com o facto das pessoas nao aprenderem a viver o silencio de forma construtiva e que na minha opinião nada tem a ver com solidão.confunde-se demasiadas vezes as duas coisas.
    eu gosto do silêncio. muito.
    um beijo
    riquita

    Comentar por Cristina | 06/07/2005 | Responder

  2. Serás o silêncio,mas também o grito.
    És sempre tu quem decide.
    Beijinho

    Comentar por Lucília | 06/07/2005 | Responder

  3. Joaquim… com dúvidas existenciais? A explorar dúvidas filosóficas (ou melhor, existenciais) acerca de nós próprios; de quem somos, afinal, para nós próprios e para os outros…

    Comentar por O Micróbio | 06/07/2005 | Responder

  4. Mais vale um silêncio solitário que nos diga muito do que o ruído de uma multidão que nada nos diz.

    piquica :)**

    Comentar por Anonymous | 06/07/2005 | Responder

  5. Amigo esse silêncio deve ser, motivado pela tua falta em nos vizitar. Beijinos Quim

    Comentar por Adryka | 06/07/2005 | Responder

  6. Olá vizinho. O teu silêncio é doce, é calmo, há horas de silêncio assim. Outros silêncios há que são cantantes, alegres, brilhantes, de serenidades mil. São vozes que nos murmuram ou simplesmente escutam a voz existente em nós. Bjinhos Quim, gostei muito deste teu voo sobre o silêncio

    Comentar por amita | 07/07/2005 | Responder

  7. Depende apenas e só do meu grito; se este, o grito, do meu peito sair com força, com ânimo, com desejo de ser quem sou e não quem quero parecer ser…

    Também eu me sinto assim.
    Não só e tão só.
    Um beijinho e bons sonhos…

    Comentar por woelfin | 07/07/2005 | Responder

  8. Joaquim,o nosso silêncio e nossa solidão só existem se nós deixarmos, quando nos entregamos a eles.
    Um abraço. Augusto

    Comentar por augustoM | 07/07/2005 | Responder

  9. Aqui são 4:17 (horário de Brasília)…Nesta madrugada fria isone, o meu silêncio encontrou-se ao seu, nem dou ouvidos a razão que me manda ir dormir. Se temos nossos silêncios por companhia, nunca estaremos realmente sozinhos. Você é uma das poucas pessoas, que consegui nos transmitir seus devaneos, seus momentos íntimos de alma, com uma singeleza sem igual. E nunca, mas nunca mesmo, se mostra sofredor, triste. Por isso gosto de vir aqui! Por isso gosto de que escreves. Com o meu carinho quim…

    Comentar por Amada Mi!!! | 08/07/2005 | Responder

  10. ahhhh… o silêncio… aquele que nos faz chegar ao fim do dia roucos de não falar…
    De que nos apercebemos um dia… e deixamos de notar no outro?
    Desse eu sei…

    Um dia deixou de me assustar…
    Mas dizem que o medo nos ensina melhor, nos preserva…

    Beijinho

    Comentar por Raquel V. | 09/07/2005 | Responder


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