Lobices

…meiguices de lobos e não só…

Carta ao meu filho

…Nuno, é o meu primogénito… faz hoje 39 anos que me deu a alegria de passar a ser pai… longa caminhada esta que nos levou por estradas tão diversas… sendas percorridas com risos e lágrimas… metas que não estão escolhidas mas que serão atingidas… com esperança no peito e um sorriso na alma… parabéns, meu filho
…um beijo grande
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“Não, não me pediste, meu filho, para nascer, não… Foi apenas um desejo meu, um desejo muito antigo, daqueles desejos de me tornar num Homem plantando uma árvore, escrevendo um livro e fazendo um filho… sim, foi um desses desejos íntimos que, na companhia da mulher que te deu à luz, eu te dei vida, uma vida desejada e acompanhada até aos mais ínfimos pormenores… É verdade, foste desejado com muito carinho e muito amor… não amor carnal para gerar um filho mas amor de pai que pretende ser pai… mas tu não foste ouvido, não o podias ser… mas sempre pensei que a vida nasce sem que a gente a provoque, ela nasce pela simples razão de que tem de ser… E num determinado dia, rasgando as carnes de tua mãe, vieste beijar a luz deste mundo que tão diferente é daquele em que, durante 9 meses, te escudaste das maldades que nos rodeiam e nos provocam náuseas por não sabermos como evitar tais momentos… Esses 9 meses de gestação prodigiosa que somente Deus pode conceber e permitir, foram meses de acalentadas esperanças pelo dia tão ansiosamente esperado… 9 meses de fortuna espiritual por te saber ali, por te saber vivente e prodigiosamente sobrevivente num mundo perfeito que somente se conhece mas não se sente pois não nos lembramos nunca de como se passaram esses momentos “lá dentro”… E quando, então, rasgaste as carnes maternas eu chorei de alegria por saber que eras algo meu, algo vivo, materializado, que tinha vindo de mim e se transformado dentro do ventre materno… sim, chorei de alegria por te saber ali a meu lado e por saber que estava a teu lado… Mal te pude pegar, pois tinha medo de te magoar… não queria macular com as minhas mãos aquilo que estava imaculado, pois naquele momento nenhum pecado poderias ter cometido pois estavas ali por vontade suprema de Deus Pai e que ninguém me diga, que ninguém me ouse dizer que um recém-nascido vem maculado por qualquer tipo de pecado… Deus te criou por meu intermédio no ventre de tua mãe… nasceste por vontade Dele, logo não cometeste qualquer pecado e abençoados todos os que nascem por vontade única de Deus Pai… Os anos que se seguiram foram anos de alegria e anos de espanto pelas habilidades que davas a conhecer aos que te rodeavam de amor e carinho… E numa criança te tornaste e como criança cresceste para o mundo… percorreste todos os caminhos normais e habituais que qualquer criança costuma percorrer: os trambolhões, os choros, as maleitas, a escola… a entrada pela porta da vida prática de qualquer ser humano… E muito cedo num homem te tornaste, pelo abandono forçado que tive de te proporcionar por razões que não te diziam respeito e das quais não eras responsável nem sequer tinhas nada com elas…então, porque razão haverias de sofrer pelos erros cometidos pelos outros, especialmente pelos dos teus progenitores?… Que pecado cometeras tu para pagares pelos erros dos outros?… Que mal fizeras ao mundo para ele te responder dessa maneira?… Que tinhas tu a ver com as agruras da vida de teus pais se não eras a origem desse mal?… Por que haverias de pagar por erros não cometidos?…
Não te sei responder, meu filho… Mas que pagaste… e bem… lá isso pagaste… E esse preço faz parte da minha dívida para contigo… dívida que jamais poderei pagar, pois por mais que te ame, jamais te pagarei o sofrimento que te provoquei…E esse preço faz parte da minha angústia para o resto da minha vida, pois por mais que te ame, jamais aliviarei a dor que sinto no meu peito… E esse preço faz parte integrante do meu dia a dia, pois por mais que te ame, jamais sairá do meu peito a dor da dor que te dei… Não te peço perdão pois não sou digno dele… não te peço que me releves todas as minhas faltas… não te peço que me compreendas… não te peço sequer que entendas… Peço-te apenas que acredites na dor que vive comigo…”

Teu pai.

31/05/2009 Posted by | Diversos | 2 comentários

Veneno

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30/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Singelo

… não, não te movas… deixa-te estar tal como estás… aí, serena, em paz… deixa-me olhar-te mais uma vez para além das muitas vezes que te olho, que te toco ou que te sinto… deixa-me ver a tua face, os teus olhos, o teu brilho ou até mesmo a tua alma… deixa-te estar assim, serena, calma… deixa-me olhar-te sempre, tal como te olhei ontem, deixa que te olhe hoje e amanhã… quero tudo já, mesmo que demore a eternidade nada me faz mais feliz do que esta tão suave felicidade… o prazer de te ver, de te ouvir, de te sentir, de te saborear… o prazer de te amar… o prazer de te saber aí ou aqui mas dentro de mim, sempre, perene, nunca ausente… é um estádio puro de loucura sã a que vivi ontem a que vivo hoje a que viverei amanhã… é um saber com sabor num saborear a mar… o mar do verbo amar num deixar fluir o teu ser e o meu estar… e o beijo flutua no ar e pousa de mansinho no teu regaço, singelo gesto do mais desejado abraço…”

29/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Não sei o nome

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28/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

A serenidade me visitou

“… a calma tinha-se aproximado de mim como não me conhecesse… eu já a conhecia há muito pese embora os grandes momentos em que não a via ou não me encontrava com ela… porém, naquela vez, ela fez de conta que não sabia quem eu era… aproximou-se mansamente e como quem não quer a coisa, saudou-me ao de leve com um leve acenar pela passagem, pelo encontro… não lhe liguei demasiada importãncia mas educadamente correspondi ao seu aceno e sorri-lhe… foi nesse momento que ela olhou para mim e, de chofre, me perguntou: – Porque sorris?… Naquele instante não encontrei resposta mas uns segundos após, saiu-me uma frase lenta e suave: – Porque não haveria de sorrir?… Acho estranho, disse ela: Estás sempre preocupado, cheio de problemas, a tua cabeça é um vulcão, a tua alma desespera, o teu coração bate e os teus olhos não choram… Pois, respondi eu, eu sei mas por vezes caio em mim e entendo que de nada me vale o lamento; por certo que estou errado quando desfaleço e sentado ou deitado me concentro nas agruras da vida; depois penso que a vida é apenas aquilo que dela fazemos, aquilo que dela queremos, aquilo que dela podemos tirar… a vida nada nos dá excepto ela mesma, ou seja, ela se nos entrega numa única vez e após instalada em nós, somos nós mesmos que a gerimos… temos esse poder, o poder de moldar os dias, as horas, os minutos e até mesmo os segundos dos nossos momentos aqui e agora, ontem e, quem sabe senão ela, também amanhã… somos nós que decidimos enfrentar ou não o momento que se nos depara, seja ele bom ou mau… é apenas uma questão de escolha… mas tu não eras asssim, disse-me ela, a calma… sim, eu sei… na verdade, a vida foi tão diversa e tão cheia de coisas e coisas que houve vezes em que não te consegui enfrentar ou mesmo aceitar e desesperei… porém, houve também momentos em que soube que me podias ajudar… por isso te sorri agora… sei que me podes inundar e tornar-me pleno de mim mesmo e conceder-me ainda mais a capacidade de me dar ainda mais do que já tentei… sei que me ajudarás… porque me trazes a sabedoria, a sensatez, a alegria, a ternura de me saber feliz ao sentir que amo, que o caminho que percorro é o único que me pode serenar, o único que me pode pacificar, a caminhada plena para amar… e, com amor, se ama e com amor se perpectua a nossa vida, mesmo para além da morte… por isso, hoje, te sorrio por saber o quanto amo quem amo, quem me dá a plenitude da serenidade, num amar terno e seguro, forte e puro, real que de tão real, a ti o juro…”

27/05/2009 Posted by | Diversos | 1 Comentário

Graal

… avanço na direcção certa ainda que não saiba o caminho, mas avanço… não me deixo ficar a olhar para a vereda que já percorri… avanço em frente, passo a passo, com cuidado mas com força e determinação… não são os meus pés que caminham mas a minha alma, o meu sabor de caminhar e o meu saber de que o estou a fazer… avanço porque quero… porque espero… porque sei que vou encontrar… o que quer que seja ou qualquer que seja o meu destino, a minha meta, a minha linha de chegada (a linha de partida já se esvaíu da minha memória), eu sei que a recompensa está lá… seja ela minúscula ou enorme… mas não é o seu tamanho que me move… mas sim o ter de ser… o querer, o amor, o desejo de amar… o caminho mais nobre, mais salutar do ser humano: amar!… vou sem olhar para trás… afasto os escombros dos prédios destruídos da guerra que se travou dentro e fora de mim ao longo dos anos e que foram ficando ali à minha frente porque nada pode ficar para trás… não devemos olhar para trás, não, mas tudo o que passou vai connosco na nossa caminhada… é preciso, pois, afastar o entulho, o pó, as pedras aguçadas que nos cortam o ser e continuar a correr… a percorrer… a olhar em frente, erectos, de cabeça erguida, de olhar brilhante e não turvado por uma ou outra lágrima que teime em cair… apenas tenho de ir… e vou… avanço sem medos, sem receio do que vou encontrar… o que lá estiver será o que calhar, o que tiver de ser… o que lá estiver, no final da caminhada será apenas o meu tudo ou o meu nada… mas o que quer que seja, seja tudo ou seja o nada, o que quer que seja, será meu… meu para abraçar, para abarcar, para enlaçar, para gritar ao mundo que por mais desconhecido que seja o fim do caminho, devemos avançar, com ternura, com amor, com garra, com dor se preciso for, com todo o afinco, com todas as nossas forças na procura do nosso “graal”, na busca do sentido da nossa vida, para que no acto final, qualquer que ele seja, eu saiba que fiz tudo o que me foi possível para saber que valeu a pena, que nada perdi, que fui quem fui, que sou quem sou, que serei quem tiver de ser, no aceitar único de que o percurso certo e correcto é apenas saber e querer amar…”

26/05/2009 Posted by | Diversos | 2 comentários

Não sei o nome

hhh003aa

25/05/2009 Posted by | Diversos | 3 comentários

Rosas de Santa Teresinha

ggg002aa

24/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Daqui ninguém me tira

cris08032009857aa

23/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Fogo

ver001aa

22/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Vela à vista no horizonte

dfr007aa

21/05/2009 Posted by | Diversos | 1 Comentário

O predador silencioso

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19/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Para um bom início de semana

ros001aa

18/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Elegia

“…ele olhou-a nos olhos e viu uma tristeza profunda na alma ou lá onde é que a tristeza ou a alegria se instalam às vezes em nós… ele olhou-a nos olhos e viu o que ainda não tinha visto: a mágoa de não ser o que queria ser, a dor de não poder, o sofrimento do desejo insatisfeito ou ainda do satisfeito não desejado… olhou-a bem nos olhos e viu-a chorar por dentro sem que uma lágrima bailasse nas pálpebras tão serenamente abertas… olhou-a uma vez mais, sem pressas (ou altivez como quem percebe o que está a fazer, ou a sentir ou ainda a ver), com vagar, com doçura, com precisão… sentiu-lhe a pulsação acelerada quando lhe pegou na mão… tinha-a fria, quase gelada e aquele olhar tão triste ainda mais fria tornava aquela mão… pegou nela e levou-a até ao seu peito… espalmou-a bem de encontro à sua pele em peito nu e com a outra mão cobriu as costas dela forçando-a a ficar ali para que o calor a invadisse… não, nada lhe disse… ficou assim, olhando bem fundo dentro dela… aproximou a sua boca da boca dela, muito lentamente, e muito ao de leve pousou lá um beijo… nesse momento, sentiu nos seus lábios o sabor salgado de uma lágrima… saboreou o gosto e pousou-lhe a cabeça pendida no ombro… apertou-a contra ele e deixou-se ficar assim, juntos… um momento eterno para lembrar se tivesse sido filmado naquele momento… seria uma pose a lembrar para o resto da eternidade… sentiu a mão dela a aquecer e a sua face enrubescer num lento esgar de um sorriso… viu então o seu olhar, até ali perdido, encontrar-se em algum lugar… talvez dentro de si mesma, talvez dentro dele, talvez na fusão dos dois, não interessava, mas ele, o sorriso, ali se encontrava, um sorriso que brotava do calor dos corpos ou do bater de dois corações que se amam e tudo entendem… ele sorriu também, os corpos se moveram e se convulsionaram num espasmo de espanto e de sabor a tudo e a tanto… o doce sabor do perdão… o doce sabor da gratidão… o doce paladar do encontro, do confronto, do calor do ombro deixado de ser almofada para se tornar parte do abraço… e o riso se instalou num suave embalar dos dois ao mesmo tempo que aquela lágrima ficara lá, em lugar distante, perdida, a secar…”

17/05/2009 Posted by | Diversos | 2 comentários

Molhar os pés

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16/05/2009 Posted by | Diversos | 2 comentários

Manuel Alegre

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15/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Camilo Pessanha

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14/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Espelho

“…torno-me espelho de mim mesmo e a luz que em mim me toca, se reflecte no exterior do meu ser… espalho o que sou no espaço em meu redor… vejo-me diverso e dividido em milhares de partículas de luz, facto que tanto me seduz… porém, receio quebrar-me em mil pedaços e perder a magia destes meus ténues passos pelo mundo da fantasia… elejo-me mentor de mim próprio e, sereno, torno-me pleno daquilo que sou: uma partícula apenas no meio do nada que me rodeia… mas a minha imagem, por todos os lados dividida, semeia no espaço em que me insiro tudo o que tenho por pouco que seja e eu sinto que a verdade deste louco imaginar, mais não é do que o desejo de o ser, de em mil imagens me tornar e… me dar…”

13/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Parou de chover nos canteiros

olg005aa

12/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Continua a chover nos canteiros

olg003aa

11/05/2009 Posted by | Diversos | 2 comentários

Hoje chove nos canteiros

olg004aa

10/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Matinal

“…olhou-se ao espelho naquela manhã de vento norte que forte soprava na sua janela… os seus olhos marcados por largas olheiras de uma noite mal dormida não lhe permitiram uma razoável visão… colocou os óculos… mirou-se melhor… a boca estava seca e os lábios pareciam cortados… o cabelo despenteado ainda que curto cortado… o nariz comprido deu-lhe a noção de grandiosidade que não tinha (nem queria, ou será que sim?)… retirou os óculos e pousou-os perto… abriu a água fria e meteu a cabeça debaixo do jacto… estremeceu e abanou a cabeça como cachorro molhado há pouco… olhou-se de novo… pela cara escorriam as gotas da água com que se fizera acordar daquele sono pesado… olhou profundamente nos seus próprios olhos mas teve de colocar novamente os óculos para se ver melhor… a imagem que mirava era interessante apenas porque nova… quem via era alguém que já não via há muito tempo… estava ali, à sua frente, alguém que tinha dormido um sono bastante longo… estava ali, à sua frente, alguém que acordara de novo… foi preciso uma espécie de baptismo… foi preciso nascer de novo, como que surgir do ventre materno e sentir a placenta feita água gelada escorrer-lhe pela face… sorriu… sentiu-se novo, bonito, airoso, sorridente… piscou um olho a ele mesmo… sorriu novamente e pegou na espuma de barbear…”

09/05/2009 Posted by | Diversos | 3 comentários

Quarteto

ros001aa

08/05/2009 Posted by | Diversos | 2 comentários

David e Golias

riu006aa

07/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Puro sangue

ros003aa

06/05/2009 Posted by | Diversos | 1 Comentário

Rio abaixo

riu005aa

05/05/2009 Posted by | Diversos | 2 comentários

Um ponto de vista

riu004aa

04/05/2009 Posted by | Diversos | 3 comentários

Materna

“… durante 3 dias o teu corpo se contraiu com as dores de parto e a criança que trazias no ventre não queria sair… durante 3 dias o teu corpo se contorceu de dores e eu, impávido e sereno, dentro da tua bolsa amniótica, alheado do mundo que te rodeava, aguardava talvez que o meu mundo não explodisse e a minha vida fosse ali, onde estava… ao terceiro dia de dor, no dia 8 de Dezembro, fui obrigado a sair de dentro de ti… tiraram-me à força e eu pude ver a luz do dia e tu pudeste descansar… nasci no dia da Imaculada Conceição, a concepção por natureza, o dia em que se celebrava o dia das mães… ainda hoje, para ti e para mim, 60 anos passados, esse é o teu dia, o dia em que, pela única vez foste mãe… o meu nascimento forçado provocou a tua impossibilidade de gerar mais filhos e jamais pude ter irmãos… trataste de mim, sempre… hoje, sou eu que trato de ti… porque mereces e porque ainda és a minha mãe…”

03/05/2009 Posted by | Diversos | 1 Comentário

Meu amado rio, meu amado Porto

gaia-019aa

03/05/2009 Posted by | Diversos | 1 Comentário

Imagens

“… encosto a cabeça no vidro semiaberto e fecho os olhos por segundos… pela frincha sai o fumo do cigarro ao mesmo tempo que as gotas da chuva varrida pelo vento tenta entrar com força… não há lágrimas que se comparem às que batem no tejadilho do carro… o vento sopra forte de sul e as ondas alterosas mostram-me um mar agitado porque de si próprio aquelas lágrimas haviam saído uns dias antes… percorro a visão até ao horizonte cinzento-escuro e vejo um relâmpago descer sobre as águas… imagem bela e soberba… o céu zangado como me ensinaram em criança… o interessante era terem mais medo do trovão do que do relâmpago… havia uma cantilena que rezavam fechadas no quarto… algo que no meio das palavras semi comidas pela reza eu percebia algo como santa bárbara… mais tarde vim a saber que Santa Bárbara tem a ver com as trovoadas, dizem… imagens da infância que recordo com saudade… um corpo deitado no chão da sala, uma chupeta e um açucareiro ao lado… e lá ia eu molhando a chupeta no açúcar e chupando… ainda hoje gosto de comer açúcar… um corpo escondido no meio do centeio que não se dobrava pelo vento… um corte num pé provocado por um vidro escondido… umas mãos pequenas pegando nas pombas que existiam no pombal do pai… uma gaveta com postais antigos do Brasil que meu avô trouxera… um retrato enorme dele e de minha avó no dia em que casaram, pintado a carvão… era imponente… um fogão de lenha crepitando… o cheiro a sopa… o avental da avó sempre à cintura… a roda grande da bomba de tirar a água do poço… a relva do coradouro onde o cheiro da roupa lavada com sabão azul, perfumava o ar da manhã… as couves galegas mais altas que eu… imagens a passarem em catadupa… e a chuva que entrava pelo vidro começou a molhar-me a face e a cabeça e o cigarro já me estava a saber mal… liguei o motor, fiz marcha-atrás e arranquei dali para fora… para lá do mar ficava o sonho, o sonho que sempre tive de o enfrentar, o sonho que sempre tive de me meter dentro dele e o amansar… nunca conseguido… um dia quase me havia engulido… os faróis foram ligados porque a penumbra já era demasiadamente escura para ser dia… a noite que se aproximava iria brindar-me com mais recordações… é isso que faço para adormecer todas as noites… relembro imagens distantes e tento reconstruir a vida que já não existirá nunca mais… puzzles de imagens, de sons e de choros e de risos, de quedas, de corridas, de corpos cheios de calor abraçando-nos… porque nos faz tanta falta esses abraços de outrora?…  a estrada à minha frente ainda era longa e a noite me esperava…”…”

02/05/2009 Posted by | Diversos | Deixe um comentário

Verde esperança no 1º. de Maio

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01/05/2009 Posted by | Diversos | 1 Comentário