Lobices

…meiguices de lobos e não só…

Ensaios

Porque te amo?

“…amo-te porque te amo… porque me sinto bem quanto te olho… quanto te toco… quando te beijo… quando sinto a tua pele perfumada junto da minha… quando te vejo sorrir para mim… quando ouço a tua voz… quando te ris… quando me tocas, me acaricias e me fazes sentir homem… amo-te quando me dizes que também me amas, quando me dizes gostar de mim, quando me olhas e vejo no teu olhar a tua alma e o reflexo da minha… quando sabemos que nada mais no mundo nos importa… quando sentimos que tudo o que gira à nossa volta está parado e somos o centro de tudo… amo-te quando te digo que te amo, quando te sussurro palavras ternas, quando ouço as que me dizes… amo-te quando me dás um mimo, um sabor, o roçar ao de leve ou mesmo forte… amo-te porque te amo… porque te sinto bem quando me olhas… quando me tocas… quando me beijas… quando sinto que sentes a minha pele… quando te sorrio… quando ouves a minha voz… quando me rio… quando te toco, quando te acaricio e te faço sentir voar… amo-te quando estou aqui ou aí… amo-te mesmo quando não estamos ou não somos… amo-te porque sei que te amo, porque sinto que te amo, porque vivo esse amor duma forma terna, doce, suave e pura mesmo quando os corpos se entrelaçam e vibram em loucura… amo-te assim, tão simples…tão tudo em ti e em mim…”

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…OUVINDO A NOITE

…sentado nesta cadeira de frente para o meu computador, numa mesa de madeira, branca de sua cor, eu teclo nas letras paradas ao redor dos meus dedos…preparo um texto, sem contexto, com uma textura qualquer, talvez de amargura…não me preocupa a forma, nem as palavras que me vão deslizar pelos dedos e destes para o écran que, de vez em quando, olho prevenindo um possível erro de escrita…não me preocupa o tema, mesmo que sem lema não se torna um dilema neste plural sistema de escrever prosa ou poema…
…trata-se de fazer deslizar apenas o teclado pelos meus dedos e deixar sair as palavras da minha mente numa constante busca da semente do significado para aquilo que estou a fazer neste momento…e que faço eu, nesta hora, aqui, sozinho e agora, batendo lento ou apressado nas teclas do meu teclado…olho em frente e vejo um relógio que marca as horas lentas que passam por mim e que marcam o tempo de viver a sorrir e a amar…tudo e todos, sem olhar a quem…somente por amar…
…e que espero eu obter desse amargor doce da alma que sofrendo não chora, pelo contrário, vive e implora…e que espero eu senão encontrar o caminho mais leve que me percorra o corpo como quente neve branca como o luar que lá fora, no céu cinzento, teima em espreitar numa noite fria de chuva que se aproxima do meu solitário estar…
…não percorro os corredores do dia que passou nem choro as lágrimas que retive dos acontecimentos que por mim passaram como uma brisa leve pousando no lugar onde estou e me sinto pairar dentro do meu próprio eu…
…procuro o sentido da vida que não encontro, numa procura constante de mim mesmo, na luta insana da loucura que afasto de mim nem que seja por um instante…
…e esse instante está chegando na forma da noite que se aproxima, daquele estado de espírito que me anima, pois a solidão resta a meu lado sem um mudo som nem qualquer grito abafado de dor…
…e aqui fico…
…esperando a noite chegar para nela me agachar e aninhar…povoar nela os meus sonhos de aqui me sentir e de aqui gostar de estar, neste lado do meu mundo, sozinho, de dia ou de noite, a mim próprio mentindo…
…mentindo-me em constante delírio duma busca que ufana luta me provoca na mente que, pensando, não me escuta…
…e não me oiço a pensar, nem quero sequer isso imaginar; oiço apenas a noite chegar e a sua escuridão me abraçar, sem me possuir nem me ter, apenas me rodeando de um leve prazer por ouvir os seus sons sobre mim verter…
…e vertem-se esses sons em pancadas surdas de palavras mudas, livres e desnudas de sentido ou de intenção…
…a noite traz paz ao meu coração…Ouvindo-a, fico sossegado e dou a mim próprio a minha própria mão…segurando-me para não a possuir…para ficar aqui e não ir…
…senti-la apenas num, pequeno que seja, luxuriante som…
…Ouvindo a noite, parto para o êxtase do meu ser, não pretendendo ver, apenas ouvi-la…
…dentro de mim, a bater…

 

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…POETAS

“…quis ser um poeta que tivesse asas… e poesia em cada voo… quis ser um poeta cujas palavras vos enchesse a casa… e que vos reencontrasse em cada dor… quis ser um poeta que fosse fogo e água e sol e terra… e que com todos esses elementos criasse um novo ser… mas há poetas que são simplesmente poetas… há poetas que ainda nem sabem que o são… há poetas… imensos… tentei um dia ser um desses poetas… e sei hoje que um poeta nunca morre… faz-se em vida mesmo na morte, soltam as asas e levam-vos o vento… protegem-vos e fazem-se ao caminho convosco… peregrinam em vós… que com ele caminhais… bebeis o sorriso dos poetas… vedes pelos seus olhos, e por detrás desses olhos, uma alma que brilha e ilumina cada recanto escuro da vossa própria alma… e é em dias de negro e frio que mais precisais dos poetas… porque eles são fonte, força e semente… um poeta nunca mente… ele, o poeta, é a vossa armadura, a vossa madrugada e o fim de tarde… a vossa lua nova ou lua cheia… são perenes todos os poetas… nascem e renascem… mesmo sem nunca morrerem… nada destrói um poeta, nem a voz nem o sentir… quis ser um desses poetas que tivesse asas e poesia em cada voo… podemos ser usados, abusados, até como lixo abandonados, enegrecidos e deturpados… simplesmente somos quem somos … podemos ser retalhados, citados e aviltados… podemos ser usados como arma de arremesso… podemos ser teorizados e complicados… podemos ser mistificados e cristalizados… podemos até servir de pasto em chamas inquisitoriais… não somos orações, nem homilias nem credos… e não nos deixamos cair… não somos ameaça do fim do mundo… não somos propriedade de ninguém… não somos espada nem guilhotina… não cabemos na pena nem no ódio de quem de nós se apropria… somos apenas poetas… somos simplesmente imensos… não cabemos em nenhuma semana nem em qualquer dia… somos de todos os tempos… não nos deixamos aprisionar por nenhuma alma negra… somos apenas asas… não somos anjos… somos apenas amor e amamos… e se agora sei, como tão bem sei, que as palavras vos podem fazem voar, que às vezes vos levam para lá do mar, em asas de vento, de dor e de amor… sei também, como sabem todos, que não há palavras nem versos, nem poesias que cheguem para transformar um poeta num anjo…”

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…SOBRE A LOUCURA

Primeira carta:

“…acordei por volta das 3 e 15 da manhã… sim, era isso… olhei para o relógio da mesinha de cabeceira e marcava 3 e 15… é um relógio daqueles de ponteiros luminosos… Olhei para o tecto sem saber porque razão acordara, mas lembro-me que talvez tenha ouvido a porta de um carro, lá fora, a bater ao fechar-se… olhei de seguida para os buraquinhos das frinchas da persiana da janela e divisei a luz da noite… a rua tem candeeiros e vê-se essa luz ainda que difusa… Senti o corpo morno e passei a minha mão pelos meus seios acariciando os bicos do peito… Deixei a minha mão descer pela barriga até sentir o meu sexo e desejei ter-te ali comigo… a minha mão acariciou os pelos púbicos e lentamente introduzi um dedo na minha vagina… Deixei-me estar assim durante uns momentos e lembrei-me de ti… lembrei-me de todos os momentos que te tive e que a meu lado te senti… Sabes, quando me abraçavas e me sentia pequenina, dessa forma mágica que tens de me abraçar… quando me beijavas e me sentia desfalecer ao sentir a humidade dos teus lábios… sabes, não sabes?… Sei que sim… Lembras-te daquele dia em que nos encontramos pela primeira vez?… O dia em que nos olhamos e os nossos corações bateram?… Aquele dia mágico que marcou o resto dos outros nossos dias?… Acordei sem saber por razão acordava mas penso que a saudade marca o sonho e, se calhar, estaria a sonhar contigo… Lembras-te daquele dia em que estavas sentado no sofá da nossa sala e me ajoelhei a teus pés?… Lembras-te de termos feito amor na mesa da cozinha?… Lembras-te daquelas férias que tivemos na montanha e lembras-te de certeza de termos feito amor deitados naquele chão branco de neve… Lembras-te de, no fim, teres lavado o teu sexo com a fria neve que estava ao nosso lado?… Lembras-te como ele ficou pequenino por causa do frio?… Lembras-te como nos rimos às gargalhadas?… E daquele dia que fizemos amor no carro?… A meio deste um grito porque te aleijaste numa perna no travão de mão?… Sim, porque não te haverias de lembrar, se eu me lembro tão bem… e daquela outra vez na praia, escondidos numa duna, quando eu fiquei cheia de areia… Acordei às 3 e 15 e já são 3 e 40!… 25 Minutos a pensar nisto… sinto-te em mim, meu amor e não estás aqui presente… mas sinto-te… sei que sou eu que me acaricio mas é como se fosses tu… sinto como se fossem as tuas mãos, o teu corpo quente, o teu hálito a maçã que costumavas comer a toda a hora… eras doido por maçãs… nunca soube porquê… nunca considerei isso importante mas era importante para ti, não era?… Os teus beijos quentes e húmidos, num saltitar constante entre os meus mamilos e a minha boca… Como beijavas tão bem… mas sei que mesmo que beijasses mal, para mim era sempre bom, doce, quente, por vezes abrasador… como eu costumava dizer que acendias em mim o fogo da lareira sempre acesa… eu sei que fui sempre “louca” por ti mas tu sempre gostaste de mim assim… eu sei que sim… eu sentia que tu gostavas de mim assim… tu também eras louco, sabias?… Sim, a tua loucura me incendiava e quando nos rebolávamos na cama parecia que tudo se partia e a cama chiava… como nós nos riamos disso… coisas giras e loucas, não eram?… Meu bem, como me lembro de ti assim?… Porque acordei eu a pensar em ti?… Porque é que ainda penso em ti ou porque é que estou sempre a pensar em ti?… Sabes que não há um único momento da minha vida que não pense em ti?… Eu sei, eu sei que dizem que estou louca… mas eles não sabem que já não estou louca, já estive, sim já estive louca por ti… agora já não estou… estou feliz, triste mas feliz e tu sabes porquê, não sabes?… Sabes, eu sei que sabes… Já são 4 da manhã… Acho que vou dormir um pouco… Penso que vou sonhar contigo e depois… depois voltar a acordar para pensar mais uma vez nos nossos dias felizes, nos dias que passamos juntos, naqueles dias em que a loucura era permitida e nada mais interessava… até ao dia em que te foste… Nunca soube porquê, porque me deixaste, porque não me quiseste mais… porquê, meu amor?… O sono está a regressar… sabes, deram-me mais uma injecção e vou ter de dormir, sim?… Eu vou dormir mais um pouco, meu amor… mais um pouco… mais um pouco… como ainda te amo… sim, serei sempre a tua Maria, meu amor… tua para sempre… para sempre…”
a tua Maria

 

Segunda carta:

“…continuo a acordar todas as noites… não há forma de o evitar… a tua ausência incendeia-me os sentidos… a tua falta provoca-me esta ânsia de te sentir presente… sofro neste sofrimento sofrido de dor e solidão… já não sei quem sou… também não interessa… lembras-te da última carta que te escrevi… sim, daquela em que acordei às 3 e 15 da manhã?… Essa…sim, quando senti a tua falta e me acariciei como se fosses tu que o estivesses a fazer… oh meu amor, como sinto a tua falta!… Não, não sei que horas são… até o relógio me tiraram deste sepulcro… olho pelas frinchas da janela e vejo luar… não sei a quantos estamos… mas isso tem importância?… Que valor terá o dia em que me encontro se não te encontro num só momento?… Desespero neste tormento de sentir a tua falta e não te sentir a presença… Como poderia sentir se tudo o que sinto é dor?… Todos os nossos momentos me passam pela memória e esta lembrança chora, chora como se fosse ela a minha própria alma e eu não existisse… Aqui onde estou não me lembro do que sou, só me lembro de ti e de todos os momentos em que estive contigo e contigo vivi… Sim, agora não vivo, apenas recordo… Dizem que recordar é viver… oh meu amor como pode ser viver se cada vez que me lembro, sinto que estou a morrer… as tuas mãos estão aqui no meu peito apertando-me os seios como tu tanto gostavas de fazer… a tua boca na minha boca e a humidade da tua língua na minha língua… o doce beijo nos meus mamilos e como as tuas mãos me penetravam com doçura e força ao mesmo tempo… oh meu bem, como te amo tanto… como te quero tanto… oh meu bem que lágrimas tão amargas estas que broto a todo o momento… olha, devem ser 4 da manhã… vem aí a enfermeira com a injecção do costume… continuam a dizer que esta minha loucura não tem cura… eu sei que não tem, como poderia ter?… Como me posso curar da tua ausência?… Como posso viver nesta minha morte?… Não sei meu amor, não sei… A enfermeira me aconchegou os cobertores… sabes, está frio e sinto frio dentro de mim… já não consigo falar… apenas olho no vazio… neste vazio que me preenche… Mas não preciso de mais nada, basta-me a lembrança dos momentos que vivemos… basta-me esta dor que vive comigo… bastam-me estas lágrimas… o meu pão de cada dia… o meu alimento neste vazio… sinto os olhos pesados… sei que vou dormir mais um pouco mas estou feliz pois vou dormir contigo nos meus braços, nestes braços que não te sentindo te lembram, te tocam, te apertam contra mim… lembras-te de quando adormecíamos assim?… Como era bom acordar a meio da noite com os braços dormentes e sentir o calor do teu corpo abrasar este meu ser que de tanto te querer te perdeu… oh meu amor, como te amo… como sinto a tua ausência… vou dormir… até mais logo… lembra-te de mim como me lembro de ti… um resto de noite feliz, meu amor…”
a tua Maria

Última carta:

“…já é habitual acordar a meio da noite… é sempre naqueles intervalos entre o efeito das drogas que me dão… aproveitei sempre esses momentos para te escrever, meu amor… porém, estou convencida que esta será a minha última carta e, sinceramente, não sei o que te quero dizer… meu amado, meu bem, meu doce, meu tudo, meu ser, minha alma, minha única razão de existir: não sei sequer se irás ler estas minhas palavras… como é hábito e tu sabes, devem ser 4 da manhã… está na hora de mais uma dose e a enfermeira deve estar a chegar… restam-me poucos minutos e estas serão as últimas que vou poder te escrever… as outras cartas que te enviei, onde recordava tudo o que de belo e bom tivemos durante os tempos em que estivemos juntos, também não sei se foram parar às tuas doces mãos, (tão doces de todas as carícias que me levaram ao êxtase e ao delírio, tão suaves que eram, meu amor, tão doces que as sentia em mim como se minhas fossem, como se me pertencessem desde sempre)… não sei se te disseram como estou, não sei se sabes no que me tornei… mas, há cerca de meia dúzia de dias (como se contam os dias aqui?… não me perguntes porque não te sei responder…) ouvi-os dizer que já não havia nada a fazer e que a única forma era o isolamento total e final… vão, pois, privar-me da única coisa que tinha vinda do exterior… a luz da lua nas noites frias porque sem ti e da luz do sol gelado porque não a teu lado… tiram-me também o bater das gotas da chuva que me faziam contar os segundos em que olhava o tecto e recordava tudo o que fomos… vão, portanto, enviar-me para longe de mim mesma, encharcar-me de drogas e mais drogas para que eu não possa reagir e gritar como tenho gritado estes últimos anos… gritado por ti, meu amor, gritado pela tua ausência, pelo amor que tivemos, por tudo de bom que passámos, por tudo o que está gravado na minha alma, na minha pele, no meu ser, na minha totalidade… como dizer-lhes que não estou louca, como dizer-lhes que o que sou é apenas o resultado do que fomos… como dizer-lhes que nada tenho porque apenas e só tu me faltas e que nada mais desejo que não seja o que um dia fomos… queria, antes de ir, antes (eu sei) de morrer de falta de ti, olhar-te apenas mais uma vez; fixar teus olhos e sorrir no teu sorriso… tocar teus lábios e tornar-me num beijo… sentir tuas mãos nos meus seios e ser eu mesma esse toque… sentir teu sexo me penetrar e ser eu mesma a penetração… meu amor, apenas uma última vez e eu ficaria curada… mas tenho consciência (sabes aquela consciência que nos resta no intervalo curto entre as injecções) de que tal não vai acontecer e sei que o meu túmulo estará naquelas 4 paredes sem grades porque sem janelas; já tinha ouvido falar delas quando cá entrei… ouço passos; deve ser a enfermeira do turno da noite… deve ser a próxima toma de mais um calmante… o habitual, a norma, o gesto, o ritual, a morte em ensaio… sei que já não vou ter mais tempo… o tempo terminou… vou levar comigo todas as recordações que me restam porque nada mais tenho nem nada mais quero: quero apenas que não me tirem a recordação do som do teu riso, o sabor do teu toque, o brilho do teu olhar… isso eles não me conseguem tirar… é isso o que vou levar comigo… quando partir para sempre deste corpo físico que já nada sente, irás dentro da minha alma e serei sempre feliz para onde quer que eu vá, tu estarás lá… eu sei, meu amor, eu sei… me despeço para todo o sempre… deixo-te a minha paz, a paz que obtive na loucura do nosso amor, a paz que me toca ao de leve enquanto sonho contigo… nada mais resta… perdoa-me por te ter amado tanto… perdoa-me por não conseguir deixar de te amar… perdoa-me por te levar comigo no meu coração… adeus, meu amor…”
a tua Maria

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…SOBRE A SOLIDÃO

“…depressa me canso de mim… olho à minha volta e só vejo recordações… uma terna claridade invade o meu quarto e me rodeia de mansinho… já reparei várias vezes: vem sempre acompanhada do silêncio!… nunca soube o porquê de tal evento… é uma luz difusa, lenta, como que surgindo a medo e com ela, um opaco silêncio… algo que nada traz a não ser paz… mas trazê-la já é bom… e é nesses momentos que me sinto só… e sabem porquê?… porque não tenho com quem partilhar esse momento!… algo que sempre desejei fazer um dia na minha vida: partilhar a minha solidão… dizer a alguém: “…Vês?… Estás a ouvir?… A minha solidão está aqui, é isto que vive aqui comigo… Entendes?…”… mas nunca consegui e nunca o consegui porque nos momentos em que a solidão me visita eu nunca estou acompanhado… engano, estar acompanhado estou mas apenas de mim mesmo e dessa luz e desse silêncio… já somos três… estendo-me então no leito dessa luz e deixo-me levar pelo barulho do silêncio que me invade… nunca é tarde para experimentar novas sensações, só que esta é já demasiadamente minha conhecida e então apenas nos olhamos e nos aceitamos mutuamente… nada mais fazemos senão partilhar aquele momento, uma partilha a três numa solidão solitária de um só… estendido nela e com o silêncio deitado a meu lado, olhamos o tecto que lentamente se separa de nós em tons de cinzentos cada vez mais escuros… passo os braços pelo silêncio e aperto-o de encontro ao meu peito… sinto o seu respirar lento e compassado… é um som simpático, eu sei, mas ao mesmo tempo ousado na medida em que invade o som do bater do meu coração… e o silêncio deixa de ser silêncio para ser um baque surdo ritmado aqui, ao meu lado, deitado… no entanto, continuo abraçado a ele e ele sente-se bem porque acarinhado… é um abraço puro mas forte… ingénuo mas apaixonado… é apenas um abraço de silêncio compartilhado num leito de claridade a escurecer em lentos tons que tem o anoitecer… porém, já quando o tecto se separa de nós e nos abandona entregues que ficámos à luz das trevas que entretanto nos envolvem, o silêncio se aperta contra mim e me possui… penetra-me fundo e a respiração torna-se ofegante, sufocante… o que até então era um prazer compartilhado passa a ser dor e algo que corrompe… penetra-me cada vez mais fundo e a dor aumenta… o bater e o som do meu coração ultrapassa o silêncio que entretanto se esvai num orgasmo de sons delirantes de espasmos gigantes que se avolumam dentro de mim… o tecto já não existe, a obscuridade ainda persiste com mais intensidade… é um estar sem vida, sem morte e sem idade… apenas habita em mim numa eterna cumplicidade… respiro o espaço que me rodeia… e a escuridão cai sobre tudo e me envolve como uma teia… já tenho mais uma companhia… o doce sono vem de mansinho amparar meu corpo e cobre-o com carinho… adormeço lento, extenuado de tanta amargura, numa vã procura do próximo amanhecer que de novo me vai trazer o fim de tarde, neste terno ciclo de amor e ódio em que espero pela eternidade…”

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2 comentários »

  1. Runas…são 25…a minha é a 25ª. e diz:

    “…que está em analogia com Oddin que é o pai e o deus dos deuses da mitologia germano-escandinava; esta Runa interpreta-se mais de um ponto de vista espiritual do que material. No entanto, concretamente, salienta a necessidade de aceitar o próprio destino, de abandonar-se ao mesmo, também de acreditar nele para poder exercer o seu livre arbítrio. Corresponde ao que todos os grandes místicos de todas as religiões do mundo designam como “renúncia”. Quando aparece num lance, dá o seguinte conselho: o de parar de querer intervir sistematicamente nos acontecimentos e nas circunstâncias na nossa vida; por outras palavras, recomenda que esperemos pelo melhor momento antes de agir e reagir oportunamente. Inquire também das grandes perguntas que todos fazemos: Quem sou?, Vou triunfar ou fracassar?, Que decisão devo tomar?, O que devo escolher?… Ela não responde a estas perguntas, mas incita-nos a reflectir mais serenamente, lembrando-nos que todas as respostas estão em nós…”

    Comentar por quimnogueira | 03/06/2009 | Responder

  2. “…todas as respostas estão em nós…”

    Depois de ler o teu ensaio sobre a LOUCURA, detive-me neste texto sobre a solidão…Era inevitável, já que é um tema recorrente na minha Poesia…Mas , fiquei sem respostas ao ensaio…És divorciado…ou viúvo, do amor da MARIA?Só apresentas as cartas de uma mulher que te amou( sei que é um ensaio!), mas nunca apresentas uma resposta ao amor e às angústias dela…Como podemos saber o momento apropriado para agir ou/e reagir? Não quero entrar pelas filosofias do Existencialismo, porque teria que te perguntar se continuas apaixonado pela “Maria”…Mas os dois textos estarão interligados por um sentido de Vida?
    Engraçado como muita da tua temática é a minha…
    Beijo
    Mª Elisa

    Comentar por maria elisa ribeiro | 29/11/2011 | Responder


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